Não só de matéria
Achylle Alexio Rubin
achyllerubin@yahoo.com.br
Acabo de ler um livro, cuja tradução italiana leva o título que encabeça esta crônica. Nesse livro o autor, Thomas Crean, professor de filosofia na universidade de Oxford/Inglaterra, analisa e contesta as afirmações superficiais e desfocadas do biólogo Richard Dawkins, em seu livro, aliás, best-seller, A ilusão de Deus. Oxalá essa obra de Crean seja logo traduzida ao português.
Faço essa referência porque escrevi em crônica anterior que a nova encíclica social de Bento XVI, Caritas in veritate, representa um tratado de antropologia. Sabemos que a antropologia se ocupa do estudo do ser humano, de sua natureza. Pois bem, a nova encíclica fundamenta todas as suas considerações sobre valores que ultrapassam de muito os meros valores materiais. Se Deus fosse uma ilusão, como Richard Dawkins gostaria que fosse, então sim a humanidade continuaria vítima da incomensurável ilusão de alcançar preencher o anseio de amor e de felicidade com meros bens materiais, econômicos...
A encíclica de Bento XVI, justamente em seu primeiro parágrafo, começa por nos dizer a evidência atestada até pelos filósofos pagãos, que são as virtudes de ordem espiritual, a caridade e a verdade, “a força propulsora para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira” (nº1).
É interessante que, no andar de toda a encíclica, o Papa nos mostra que esses valores espirituais, pertencentes à verdadeira natureza do homem, são determinantes na solução dos problemas humanos, tanto os de ordem pessoal, quanto os de ordem social, política, econômica e financeira. Demonstra-nos que eles conduzem a uma feliz experiência, a experiência do dom, da gratuidade, que deverá sempre temperar os mecanismos econômicos da sociedade. Insiste que são as virtudes da caridade e da verdade que “colocam o homem perante essa admirável experiência do dom”.
Se tal experiência não for ofuscada por “uma visão meramente produtivista e utilitarista da existência”,ela nos abre o espírito sedento de valores maiores, sedento de ‘ser mais’, para “a dimensão da transcendência”. Abrindo-se para a transcendência o homem se reconhece também dom em seu ser e em seu agir. Ele não é causa de si mesmo. Ele é dom, é gratuidade. Com isso ele se abre em louvor e ação de graças para o doador de todo dom.
Privado de uma tal consciência, “o homem moderno se convence erroneamente, de que é o único autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade. Trata-se de uma presunção, resultante do encerramento egoísta em si mesmo que provém... do pecado das origens” (nº 34).
Sobre isso, Bento XVI cita o Catecismo da Igreja Católica nessa fundamental sentença: “Ignorar que o homem tem uma natureza ferida, inclinada para o mal, dá lugar a graves erros no domínio da educação, da política, da ação social e dos costumes” (Catecismo, nº 407).
Grave erro é não reconhecer que “a natureza ferida” é a origem do egoísmo, do sensualismo desenfreado, da ganância que, hoje, todos apontam como a principal causa da grande crise em que se debatem as nações.
Acontece que “a convicção da exigência de autonomia da economia, que não deve aceitar ‘influências’ de caráter moral, impeliu o homem a abusar dos instrumentos econômicos até mesmo de forma destrutiva..., e ainda a espezinhar a liberdade da pessoa e dos corpos sociais” (nº 34). Concluo, portanto, convidando o leitor a ler com atenção a nova encíclica de Bento XVI, Caritas in veritate. Meditemos e tiremos a conclusão que se impõe de que “não só de matéria”, ou, como Jesus contestou ao tentador: “não só de pão vive o homem” (Mt 4,4; Deut 8,3)...
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
domingo, 10 de maio de 2009
Meditação para o ano catequético
Meditação para o ano catequético
O ano catequético é também ocasião para meditarmos sobre a catequese. Tem-se escrito muito, ocorreram muitos estudos a respeito. Entendo, porém, que se deveria refletir sobre dados que julgo pouco levados em conta.
Começo com uma pergunta que um candidato à vida consagrada me fez, há poucos dias: “Por que se batizam crianças, se elas não teem consciência da fé?”
Respondi: tem-se dito que a criança é batizada na fé dos pais. Considero essa resposta verdadeira, mas deveria ser explicada. Acredito, com efeito, que a criança não só é batizada na fé dos pais, mas também na sua própria fé. Como assim?
A criança biologicamente é um ser autônomo. Esse é um dos argumentos contra o aborto. Entretanto, por respeito à estrutura de seu caráter, estrutura psíquica, ética, moral e espiritual, a criança desde a concepção depende e já vai incorporando em si os elementos dessas áreas, incluída, sobretudo, a fé. Tudo isso a criança já possui incoativamente, recebido dos pais. A Renate Jost Soares, com sua intuição e trabalho tão sério e fecundo, que o diga.
Assim, o inicio desses componentes essenciais para o ser humano, não exige necessariamente o uso da consciência, pois ele acontece antes mesmo. Até o uso pleno da consciência, o filho depende dos pais nas áreas do caráter, do comportamento e da fé. Não só depende, mas também recebe esses elementos dos pais. Aqui a autonomia vai acontecendo em momentos sucessivos.
Os pais são assim ministros naturais e eficazes. Para tanto, receberam do Criador tal ministério, inscrito em sua própria natureza de pais. Trata-se ademais de um ministério indispensável e, mais do que indispensável, insubstituível!
Nenhum outro método, nenhuma outra ação poderá substituir esse ministério dos pais, recebido do Criador, inscrito na própria natureza da paternidade e maternidade. Agir contra a violência, por exemplo, não produz frutos. Seria preciso cuidar da raiz que condiciona a violência. O Texto-base da CF deste ano diz uma frase que deve ganhar mais espaço e relevo. Diz lá: “... a família forma o ambiente privilegiado e insubstituível para desenvolver a cultura da paz” (nº243).
Essa frase nos sugere por associação o principio de subsidiaridade que Pio XI consagrou na encíclica Quadragesimo Anno. Subsidiário é algo “secundário”, que presta auxílio a outro principal. Assim a comunidade maior é apenas subsidiária por respeito à menor, isto é, só deve ser de auxílio naquilo que a menor não tem condições de conseguir. A menor é a primária, a maior, secundária, subsidiaria. Esta não pode tomar o lugar daquela.
Quando levam a criança a ser batizada, os pais são exortados, tanto ao receberem a vela acesa, quanto ao serem abençoados. No primeiro caso o ministro diz: “...esta luz vos é entregue para que a alimenteis” e, no segundo, diz: “Deus... os abençoe, a fim de que...sejam os primeiros a dar aos filhos... o testemunho de sua fé em Jesus Cristo nosso Senhor”.
Que tem a ver isso com a catequese? Não é difícil de relacionar. A catequese não pode de forma alguma substituir os pais na educação da fé. O catequista não tem a competência natural para isso. Nunca fará o que só os pais podem fazer.
Muitos se questionam donde vem a fé de uns em contraposição da falta de fé de outros. A experiência nos diz que os primeiros receberam a fé dos pais. É deles que normalmente recebemos a fé. É o caminho natural, dom de Deus inscrito na natureza.
Não será, a falta de vinculação religiosa à família, a causa da queixa tão comum de que após a primeira eucaristia e, sobretudo, após o sacramento da Crisma, as crianças e adolescentes não voltam mais à Igreja? E não há também a queixa a respeito das dificuldades inatas da pastoral da juventude? Não será porque as crianças e os jovens, aos lhes faltar essa vinculação familiar, se tornam quase impermeáveis aos valores ético-religiosos?
Claro, Deus faz milagres, mas o caminho normal do agir de Deus são as “causas segundas”. Ao criar, ele enriqueceu as criaturas de capacidade de agir. E às criaturas racionais, deu a missão de educar os filhos para os valores ético-morais e religiosos. Os pais são a causa segunda na educação, sendo sempre Deus a causa primeira.
Alega-se que os pais não cumprem com sua missão. Muito bem. Mas então por que não dar mais ênfase à pastoral familiar, em vez de substituir-se a eles? Para que despertem ao cumprimento de sua missão, entretanto, é importante que concretamente sejam estimulados a cumpri-la, com a prática da educação dos filhos na fé. Por que não restituir-lhes então também a prática de seu carisma, confiando-lhes a preparação para os sacramentos de iniciação cristã?
Dir-se-á, que aos pais lhes falta o preparo para a catequese. Mas, e se não se tratasse de “dar catequese” aos filhos? O nome “catequese”, com efeito, possui uma conotação tão especializada e até complicada, depois de tantos estudos e tentativas de solução, que não se pode, é verdade, exigir dos pais tal formação. Mas, dizendo com toda a propriedade, para educar na fé basta uma só coisa: ter fé,! Que “sejam os primeiros a dar aos filhos... o testemunho de sua fé em Jesus Cristo nosso Senhor”. É só isso que se precisa de imediato. A instrução, a catequese, deverá vir depois.
Por ocasião da visita do Papa, maio de 2007, Bento XVI afirmou novamente que evangelizar não significa instruir, mas fazer outros participar da vida nova em Cristo. Pede-se aos pais só isso, evangelizar os filhos.
Por que então não se poderia deixar aos pais a missão de preparar a criança para a eucaristia e conduzi-la, em dia à sua escolha, não à “primeira comunhão”, mas ao inicio da prática eucarística?
Atualmente a catequese não se assemelha por demais à escola? A escola normalmente termina com formatura. De fato, muitos se perguntam se a “primeira comunhão”, como o dia do Crisma, não se parecem mais com uma formatura. Alcançado o “diploma”, as crianças e os jovens contentam-se com ele. Não voltam mais à igreja.
Outra questão. Com a idade de 11, ou 12 anos, ainda lhe interessa a eucaristia a criança de hoje? São Pio X, há um século atrás, pedia que iniciasse aos 07 anos a participação na vida eucarística. Hoje, um século após, e depois de tanta evolução, não se deveria pensar em 05 ou 06 anos?
Muitos temem que o número dos que fazem a primeira comunhão e a crisma irá com isso diminuir de muito. É verdade... Mas, e se a perseverança aumentasse, não seria muito mais importante?
Não só os pais, mas toda a pastoral ganharia em estímulo para buscar a raiz dos problemas e não mais permanecer na aparência dos números. Responderiam assim, em profundidade, aos anseios inconscientes dos cristãos que inconscientemente também ameaçam fugir para outras denominações religiosas.
Como me propus uma meditação para o ano catequético, não julgo necessário me alongar mais. São apenas alguns “pontos”, para serem considerados, com intenção de também ser uma proposta subsidiária.
Pe. Achylle Alexio Rubin
achyllerubin@yahoo.com.br
O ano catequético é também ocasião para meditarmos sobre a catequese. Tem-se escrito muito, ocorreram muitos estudos a respeito. Entendo, porém, que se deveria refletir sobre dados que julgo pouco levados em conta.
Começo com uma pergunta que um candidato à vida consagrada me fez, há poucos dias: “Por que se batizam crianças, se elas não teem consciência da fé?”
Respondi: tem-se dito que a criança é batizada na fé dos pais. Considero essa resposta verdadeira, mas deveria ser explicada. Acredito, com efeito, que a criança não só é batizada na fé dos pais, mas também na sua própria fé. Como assim?
A criança biologicamente é um ser autônomo. Esse é um dos argumentos contra o aborto. Entretanto, por respeito à estrutura de seu caráter, estrutura psíquica, ética, moral e espiritual, a criança desde a concepção depende e já vai incorporando em si os elementos dessas áreas, incluída, sobretudo, a fé. Tudo isso a criança já possui incoativamente, recebido dos pais. A Renate Jost Soares, com sua intuição e trabalho tão sério e fecundo, que o diga.
Assim, o inicio desses componentes essenciais para o ser humano, não exige necessariamente o uso da consciência, pois ele acontece antes mesmo. Até o uso pleno da consciência, o filho depende dos pais nas áreas do caráter, do comportamento e da fé. Não só depende, mas também recebe esses elementos dos pais. Aqui a autonomia vai acontecendo em momentos sucessivos.
Os pais são assim ministros naturais e eficazes. Para tanto, receberam do Criador tal ministério, inscrito em sua própria natureza de pais. Trata-se ademais de um ministério indispensável e, mais do que indispensável, insubstituível!
Nenhum outro método, nenhuma outra ação poderá substituir esse ministério dos pais, recebido do Criador, inscrito na própria natureza da paternidade e maternidade. Agir contra a violência, por exemplo, não produz frutos. Seria preciso cuidar da raiz que condiciona a violência. O Texto-base da CF deste ano diz uma frase que deve ganhar mais espaço e relevo. Diz lá: “... a família forma o ambiente privilegiado e insubstituível para desenvolver a cultura da paz” (nº243).
Essa frase nos sugere por associação o principio de subsidiaridade que Pio XI consagrou na encíclica Quadragesimo Anno. Subsidiário é algo “secundário”, que presta auxílio a outro principal. Assim a comunidade maior é apenas subsidiária por respeito à menor, isto é, só deve ser de auxílio naquilo que a menor não tem condições de conseguir. A menor é a primária, a maior, secundária, subsidiaria. Esta não pode tomar o lugar daquela.
Quando levam a criança a ser batizada, os pais são exortados, tanto ao receberem a vela acesa, quanto ao serem abençoados. No primeiro caso o ministro diz: “...esta luz vos é entregue para que a alimenteis” e, no segundo, diz: “Deus... os abençoe, a fim de que...sejam os primeiros a dar aos filhos... o testemunho de sua fé em Jesus Cristo nosso Senhor”.
Que tem a ver isso com a catequese? Não é difícil de relacionar. A catequese não pode de forma alguma substituir os pais na educação da fé. O catequista não tem a competência natural para isso. Nunca fará o que só os pais podem fazer.
Muitos se questionam donde vem a fé de uns em contraposição da falta de fé de outros. A experiência nos diz que os primeiros receberam a fé dos pais. É deles que normalmente recebemos a fé. É o caminho natural, dom de Deus inscrito na natureza.
Não será, a falta de vinculação religiosa à família, a causa da queixa tão comum de que após a primeira eucaristia e, sobretudo, após o sacramento da Crisma, as crianças e adolescentes não voltam mais à Igreja? E não há também a queixa a respeito das dificuldades inatas da pastoral da juventude? Não será porque as crianças e os jovens, aos lhes faltar essa vinculação familiar, se tornam quase impermeáveis aos valores ético-religiosos?
Claro, Deus faz milagres, mas o caminho normal do agir de Deus são as “causas segundas”. Ao criar, ele enriqueceu as criaturas de capacidade de agir. E às criaturas racionais, deu a missão de educar os filhos para os valores ético-morais e religiosos. Os pais são a causa segunda na educação, sendo sempre Deus a causa primeira.
Alega-se que os pais não cumprem com sua missão. Muito bem. Mas então por que não dar mais ênfase à pastoral familiar, em vez de substituir-se a eles? Para que despertem ao cumprimento de sua missão, entretanto, é importante que concretamente sejam estimulados a cumpri-la, com a prática da educação dos filhos na fé. Por que não restituir-lhes então também a prática de seu carisma, confiando-lhes a preparação para os sacramentos de iniciação cristã?
Dir-se-á, que aos pais lhes falta o preparo para a catequese. Mas, e se não se tratasse de “dar catequese” aos filhos? O nome “catequese”, com efeito, possui uma conotação tão especializada e até complicada, depois de tantos estudos e tentativas de solução, que não se pode, é verdade, exigir dos pais tal formação. Mas, dizendo com toda a propriedade, para educar na fé basta uma só coisa: ter fé,! Que “sejam os primeiros a dar aos filhos... o testemunho de sua fé em Jesus Cristo nosso Senhor”. É só isso que se precisa de imediato. A instrução, a catequese, deverá vir depois.
Por ocasião da visita do Papa, maio de 2007, Bento XVI afirmou novamente que evangelizar não significa instruir, mas fazer outros participar da vida nova em Cristo. Pede-se aos pais só isso, evangelizar os filhos.
Por que então não se poderia deixar aos pais a missão de preparar a criança para a eucaristia e conduzi-la, em dia à sua escolha, não à “primeira comunhão”, mas ao inicio da prática eucarística?
Atualmente a catequese não se assemelha por demais à escola? A escola normalmente termina com formatura. De fato, muitos se perguntam se a “primeira comunhão”, como o dia do Crisma, não se parecem mais com uma formatura. Alcançado o “diploma”, as crianças e os jovens contentam-se com ele. Não voltam mais à igreja.
Outra questão. Com a idade de 11, ou 12 anos, ainda lhe interessa a eucaristia a criança de hoje? São Pio X, há um século atrás, pedia que iniciasse aos 07 anos a participação na vida eucarística. Hoje, um século após, e depois de tanta evolução, não se deveria pensar em 05 ou 06 anos?
Muitos temem que o número dos que fazem a primeira comunhão e a crisma irá com isso diminuir de muito. É verdade... Mas, e se a perseverança aumentasse, não seria muito mais importante?
Não só os pais, mas toda a pastoral ganharia em estímulo para buscar a raiz dos problemas e não mais permanecer na aparência dos números. Responderiam assim, em profundidade, aos anseios inconscientes dos cristãos que inconscientemente também ameaçam fugir para outras denominações religiosas.
Como me propus uma meditação para o ano catequético, não julgo necessário me alongar mais. São apenas alguns “pontos”, para serem considerados, com intenção de também ser uma proposta subsidiária.
Pe. Achylle Alexio Rubin
achyllerubin@yahoo.com.br
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Catequese e Sacramentos de iniciação cristã
domingo, 15 de março de 2009
Visão cristã da história
Visão cristã da história
A filosofia da história ocupou-se arduamente em buscar um sentido para o desenrolar através dos tempos dos acontecimentos humanos. Não conseguiu, porém, estabelecer um consenso entre os estudiosos. Não obstante, surpreende que o paradigma “história”, ou “histórico”, tenha alcançado, na cultura atual, tanta importância no pensamento e no agir das pessoas.
Entretanto, a história, com a vinda ao mundo de Jesus, ganha, assim como toda a criação, um sentido novo e original.
Em verdade, o “sinal de contradição” e de “queda e soerguimento para muitos” (Lc 2,34) se manifestou logo no modo novo de julgar e agir daquele “Menino”. Essa novidade, com efeito, fez com que os homens do templo, como os próprios discípulos, tivessem tanta dificuldade para entendê-lo. Os primeiros não o suportaram e terminaram crucificando-o.
Acontece que a alegoria da Caverna de Platão, entre outros significados, mostra que a sociedade não suporta alguém que venha tirá-la de suas ilusões. Platão deverá ter pensado em Sócrates. Muito mais, porém, devemos pensar em Jesus. Ele veio tirar-nos das ilusões da história, mostrando-nos que a história e a criação toda, começavam a ter, a partir dele, outro sentido.
Sobre esse sentido novo da história encontramos valiosos comentários em um autor do século II de nossa era nos deixou escrito numa carta chamada de Carta a Diogneto, publicada pela editora Vozes, em 2003.
É surpreendente como essa carta nos apresenta os cristãos como pessoas “trans-históricas”. Nos capítulos V e VI se lê que os cristãos são “paradoxais”: iguais e diferentes, ao mesmo tempo, dos demais cidadãos históricos. São iguais em tudo o que diz respeito à pátria comum: habitam nas mesmas cidades; empenham-se na política do estado; seguem os mesmos costumes, a mesma língua; vestem-se como os demais e, como os demais, também se alimentam.
Não obstante, “moram na própria pátria, mas como peregrinos”, “ cidadãos, de tudo participam, porém, tudo suportam como estrangeiros”. “Toda terra estranha é pátria para eles e toda pátria, terra estranha” (pg.23); “estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Se a vida deles decorre na terra, a cidadania, contudo, está nos céus” (pg.24). Portanto, paradoxais, iguais e diferentes, muito diferentes.
Na introdução da edição, citada acima, Dom Fernando A. Figueiredo comenta que a carta nos fala do “Hoje Divino” da História da Salvação, para nos dizer que “o cristão se torna contemporâneo do Cristo”, ou, melhor, Cristo é sempre nosso contemporâneo (pg.14).
Em outras palavras, isso corresponde a dizer que a História da Salvação perpassa e transcende a história humana. Goza de um princípio de perenidade. Representa o “Hoje Divino”, sempre “contemporânea”, independente dos fatos histórico-sociológicos.
Portanto, a História da Salvação em Jesus Cristo é paradoxal. Ela transcende os critérios da filosofia na busca de sentido para os fatos seqüenciais da história humana. Até, por ser sempre contemporânea, nem é propriamente história, ultrapassa a história.
Em nossos dias, tal afirmação é escandalosa, acostumados que se está a submeter tudo, também como método teológico e pastoral, aos critérios dos acontecimentos históricos circunstanciais.
O novo sentido da história, depois de Cristo, não é levado suficientemente em conta. O próprio critério do “sinal dos tempos”, não é visto sob esse novo sentido. E assim, o domínio da filosofia da história e da sociologia impede que se veja a contemporaneidade da História da Salvação, a contemporaneidade de Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre.
Qual o prejuízo para a vida cristã e para a evangelização? A vida cristã se torna apenas uma lembrança histórica, ou uma ciência sujeita à pura hermenêutica e não um acontecer agora, na vida dos cristãos. A evangelização, por sua vez, passa a esbanjar energias em bens materiais e esforços humanos, nas infindas análises e atenções voltadas para os fatos sócio-históricas das conjunturas sociais do momento e perde de vista o que é mais importante, a verdadeira natureza da vida cristã, a contemporaneidade de Cristo e da vida cristã.
Como, então, se entende essa visão paradoxal? A Carta responde no capítulo VIº com uma analogia que nos aproxima da compreensão. Compara o cristão, frente à sociedade profana, como a alma em relação ao corpo. A alma transcende o corpo, nos dois sentidos do transcender, tanto por encontrar-se em todas as partes, animando o corpo todo, quanto por ultrapassar a materialidade do corpo.
Assim são os cristãos. Em primeiro lugar, eles estão em toda parte: “Encontra-se a alma em todos os membros do corpo, e os cristãos dispersam-se por todas as cidades do mundo” (pg.24). Em segundo lugar, como a alma “habita no corpo, mas dele não provém, os cristãos residem no mundo, mas não são do mundo” (pp. 24-25).
Prosseguindo na comparação, o autor da Carta fala do modo de acontecer do ser cristão na sociedade profana e de sua função. O acontecer do ser cristão é, ainda, semelhante ao da alma: Assim como “a carne odeia a alma e a combate... também o mundo odeia os cristãos”... mas, “a alma ama a carne... assim os cristãos amam os que os detestam” (pg.25). A função, entretanto, do ser cristão é também semelhante à da alma: Como “a alma é quem faz a coesão do corpo”, assim também “são eles (os cristãos) que sustêm o cosmo”.
A comparação da alma e da carne nos recorda a parábola do fermento e da massa (Mt 13,33). Jesus disse que o Reino de Deus é o fermento que faz levedar a massa. A massa levedada, enquanto massa, é igual a todas as massas, mas enquanto levedada é outra massa bem diversa. Assim, a sociedade, enquanto sociedade, é igual a todas as demais, mas, enquanto permeada por vida cristã, será bem outra sociedade.
Ademais, o fermento permanece invisível, assim como a ação dos cristãos na sociedade. A Carta a Diogneto, seguindo sua comparação, afirma que, a alma invisível anima um corpo visível, assim como o cristão, no seu “culto a Deus, permanece invisível” ao mundo e, entretanto, o permeia, o anima e o transforma, transcendendo-o, porém, tanto por estar em toda parte, como por estar criando, sem ilusões, “outro mundo possível”, invisível para aqueles a quem lhes falta órgão para ver (Cf Lc 17,20; Mc 4,11-12; Mt 11,25).
E se a queda do Império Romano se explicasse muito melhor, graças a um processo invisível de infiltração, como acontece com os dendrólitos, árvores feitas pedras, por semelhante processo?
O Império não ruiu graças ao empenho dos cristãos em “ações sociais”, buscando a troca das estruturas injustas de então, mas ruiu por um processo de infiltração pelo fermento evangélico. De tal sorte aconteceu que, quando o Império se deu conta, a mãe do Imperador era, nada menos que Santa Helena.
O cristianismo não foi concorrente à sociedade civil. Não precisou pensar em nenhuma pressão física ou moral. A pressão foi espiritual. Melhor, foi o “brilho” da vida cristã, manifestação de seu lado ontológico, que minou a sociedade civil, atraindo os agraciados de sensibilidade espiritual que acorreram pressurosos.
Assim, minha apreciação a respeito dos “padres midiáticos” é a seguinte: seu sucesso não se deve ao poder da comunicação, mas ao testemunho por atitudes e palavras de uma experiência do Espírito prometido por Cristo aos que o pedissem (Lc 11,13).
O Papa, em sua rápida passagem entre nós, definiu a evangelização como um processo de atração, a exemplo do que Jesus disse e fez: Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim (Jo 12,32).
Concluindo, esse processo transformador do ser cristão representa o lado transcendente da História da Salvação, da vida cristã no mundo. O Evangelho representa novo sentido da vida e da história humanas.
Pe. Achylle Alexio Rubin
achyllerubin@yahoo.com.br
A filosofia da história ocupou-se arduamente em buscar um sentido para o desenrolar através dos tempos dos acontecimentos humanos. Não conseguiu, porém, estabelecer um consenso entre os estudiosos. Não obstante, surpreende que o paradigma “história”, ou “histórico”, tenha alcançado, na cultura atual, tanta importância no pensamento e no agir das pessoas.
Entretanto, a história, com a vinda ao mundo de Jesus, ganha, assim como toda a criação, um sentido novo e original.
Em verdade, o “sinal de contradição” e de “queda e soerguimento para muitos” (Lc 2,34) se manifestou logo no modo novo de julgar e agir daquele “Menino”. Essa novidade, com efeito, fez com que os homens do templo, como os próprios discípulos, tivessem tanta dificuldade para entendê-lo. Os primeiros não o suportaram e terminaram crucificando-o.
Acontece que a alegoria da Caverna de Platão, entre outros significados, mostra que a sociedade não suporta alguém que venha tirá-la de suas ilusões. Platão deverá ter pensado em Sócrates. Muito mais, porém, devemos pensar em Jesus. Ele veio tirar-nos das ilusões da história, mostrando-nos que a história e a criação toda, começavam a ter, a partir dele, outro sentido.
Sobre esse sentido novo da história encontramos valiosos comentários em um autor do século II de nossa era nos deixou escrito numa carta chamada de Carta a Diogneto, publicada pela editora Vozes, em 2003.
É surpreendente como essa carta nos apresenta os cristãos como pessoas “trans-históricas”. Nos capítulos V e VI se lê que os cristãos são “paradoxais”: iguais e diferentes, ao mesmo tempo, dos demais cidadãos históricos. São iguais em tudo o que diz respeito à pátria comum: habitam nas mesmas cidades; empenham-se na política do estado; seguem os mesmos costumes, a mesma língua; vestem-se como os demais e, como os demais, também se alimentam.
Não obstante, “moram na própria pátria, mas como peregrinos”, “ cidadãos, de tudo participam, porém, tudo suportam como estrangeiros”. “Toda terra estranha é pátria para eles e toda pátria, terra estranha” (pg.23); “estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Se a vida deles decorre na terra, a cidadania, contudo, está nos céus” (pg.24). Portanto, paradoxais, iguais e diferentes, muito diferentes.
Na introdução da edição, citada acima, Dom Fernando A. Figueiredo comenta que a carta nos fala do “Hoje Divino” da História da Salvação, para nos dizer que “o cristão se torna contemporâneo do Cristo”, ou, melhor, Cristo é sempre nosso contemporâneo (pg.14).
Em outras palavras, isso corresponde a dizer que a História da Salvação perpassa e transcende a história humana. Goza de um princípio de perenidade. Representa o “Hoje Divino”, sempre “contemporânea”, independente dos fatos histórico-sociológicos.
Portanto, a História da Salvação em Jesus Cristo é paradoxal. Ela transcende os critérios da filosofia na busca de sentido para os fatos seqüenciais da história humana. Até, por ser sempre contemporânea, nem é propriamente história, ultrapassa a história.
Em nossos dias, tal afirmação é escandalosa, acostumados que se está a submeter tudo, também como método teológico e pastoral, aos critérios dos acontecimentos históricos circunstanciais.
O novo sentido da história, depois de Cristo, não é levado suficientemente em conta. O próprio critério do “sinal dos tempos”, não é visto sob esse novo sentido. E assim, o domínio da filosofia da história e da sociologia impede que se veja a contemporaneidade da História da Salvação, a contemporaneidade de Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre.
Qual o prejuízo para a vida cristã e para a evangelização? A vida cristã se torna apenas uma lembrança histórica, ou uma ciência sujeita à pura hermenêutica e não um acontecer agora, na vida dos cristãos. A evangelização, por sua vez, passa a esbanjar energias em bens materiais e esforços humanos, nas infindas análises e atenções voltadas para os fatos sócio-históricas das conjunturas sociais do momento e perde de vista o que é mais importante, a verdadeira natureza da vida cristã, a contemporaneidade de Cristo e da vida cristã.
Como, então, se entende essa visão paradoxal? A Carta responde no capítulo VIº com uma analogia que nos aproxima da compreensão. Compara o cristão, frente à sociedade profana, como a alma em relação ao corpo. A alma transcende o corpo, nos dois sentidos do transcender, tanto por encontrar-se em todas as partes, animando o corpo todo, quanto por ultrapassar a materialidade do corpo.
Assim são os cristãos. Em primeiro lugar, eles estão em toda parte: “Encontra-se a alma em todos os membros do corpo, e os cristãos dispersam-se por todas as cidades do mundo” (pg.24). Em segundo lugar, como a alma “habita no corpo, mas dele não provém, os cristãos residem no mundo, mas não são do mundo” (pp. 24-25).
Prosseguindo na comparação, o autor da Carta fala do modo de acontecer do ser cristão na sociedade profana e de sua função. O acontecer do ser cristão é, ainda, semelhante ao da alma: Assim como “a carne odeia a alma e a combate... também o mundo odeia os cristãos”... mas, “a alma ama a carne... assim os cristãos amam os que os detestam” (pg.25). A função, entretanto, do ser cristão é também semelhante à da alma: Como “a alma é quem faz a coesão do corpo”, assim também “são eles (os cristãos) que sustêm o cosmo”.
A comparação da alma e da carne nos recorda a parábola do fermento e da massa (Mt 13,33). Jesus disse que o Reino de Deus é o fermento que faz levedar a massa. A massa levedada, enquanto massa, é igual a todas as massas, mas enquanto levedada é outra massa bem diversa. Assim, a sociedade, enquanto sociedade, é igual a todas as demais, mas, enquanto permeada por vida cristã, será bem outra sociedade.
Ademais, o fermento permanece invisível, assim como a ação dos cristãos na sociedade. A Carta a Diogneto, seguindo sua comparação, afirma que, a alma invisível anima um corpo visível, assim como o cristão, no seu “culto a Deus, permanece invisível” ao mundo e, entretanto, o permeia, o anima e o transforma, transcendendo-o, porém, tanto por estar em toda parte, como por estar criando, sem ilusões, “outro mundo possível”, invisível para aqueles a quem lhes falta órgão para ver (Cf Lc 17,20; Mc 4,11-12; Mt 11,25).
E se a queda do Império Romano se explicasse muito melhor, graças a um processo invisível de infiltração, como acontece com os dendrólitos, árvores feitas pedras, por semelhante processo?
O Império não ruiu graças ao empenho dos cristãos em “ações sociais”, buscando a troca das estruturas injustas de então, mas ruiu por um processo de infiltração pelo fermento evangélico. De tal sorte aconteceu que, quando o Império se deu conta, a mãe do Imperador era, nada menos que Santa Helena.
O cristianismo não foi concorrente à sociedade civil. Não precisou pensar em nenhuma pressão física ou moral. A pressão foi espiritual. Melhor, foi o “brilho” da vida cristã, manifestação de seu lado ontológico, que minou a sociedade civil, atraindo os agraciados de sensibilidade espiritual que acorreram pressurosos.
Assim, minha apreciação a respeito dos “padres midiáticos” é a seguinte: seu sucesso não se deve ao poder da comunicação, mas ao testemunho por atitudes e palavras de uma experiência do Espírito prometido por Cristo aos que o pedissem (Lc 11,13).
O Papa, em sua rápida passagem entre nós, definiu a evangelização como um processo de atração, a exemplo do que Jesus disse e fez: Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim (Jo 12,32).
Concluindo, esse processo transformador do ser cristão representa o lado transcendente da História da Salvação, da vida cristã no mundo. O Evangelho representa novo sentido da vida e da história humanas.
Pe. Achylle Alexio Rubin
achyllerubin@yahoo.com.br
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Correção de rota da Igreja
A Igreja em Correção de Rota
Achylle A. Rubin
Minha última crônica termina falando de “correção da rota” da Igreja na América Latina e no Caribe. Trata-se da Vª Conferência de bispos representantes de nosso subcontinente, realizada em Aparecida do Norte, em maio último. Sendo a Igreja composta de pessoas sujeitas a erros e acertos, resulta natural que faça periodicamente avaliações e correções.
Tal processo iniciou na IVª Conferência realizada em Santo Domingo, em 1992, sob a forte influência de João Paulo II. O documento conclusivo dessa Conferência, abandonou o método de partir das realidades sociais, para partir da profissão de fé: “Bendizemos a Deus que... ‘enviou seu Filho, nascido de mulher’” (Gl 4,4), pois “o mistério do Reino, oculto durante séculos e gerações (Cl 1,26) e presente na vida e nas palavras de Jesus, identificado com sua pessoa, é dom do Pai” (nº 4,5)! Portanto se é dom do Pai, a “prioridade” não é dada às análises sociais, ao método “socioanalítico”, mas ao dom da fé.
Em Aparecida, Bento XVI deu o tom a toda a Conferência, manifestando sua expectativa: “... esperamos encontrar na comunhão em Cristo a vida, a verdadeira vida digna desse nome... Mas isto é mesmo assim? Estamos realmente convencidos de que Cristo é ‘o caminho, a verdade e a vida’?”. O Papa segue afirmando “a prioridade da fé e vida em Cristo” em relação a tudo o que se refere à vida cristã. A prioridade não será mais a realidade social, por mais urgente que apareça. Tal rumo representa uma verdadeira “correção de rota”.
A rota, neste caso, significa o método, definido pelo dicionário Aurélio como “caminho pelo qual se atinge um objetivo”. É caminho, ou procedimento para estudar um objeto.
Ora, cada objeto a ser estudado tem seu método e cada método seu objeto. Por exemplo, não posso estudar uma planta com o método com que estudo uma pedra. É como se, para ir a algum lugar, houvesse um único caminho. Tomando outro caminho, levaria a outro lugar. Um erro de caminho, de rota, exige correção, do contrário não se chega ao lugar desejado.
Pois bem, tomando o caminho, ou método, dos dados sócio-históricos, chamados de “socioanalítico”, não se chega às realidades reveladas por Deus. Chega-se mais próximo, isto sim, do “materialismo histórico”, do qual certos teólogos tiveram e têm muita dificuldade de se desfazerem. Felizmente outros, que acreditavam nesse caminho, voltam a crer e afirmar que se deve “partir da experiência de fé”.
Os bispos reunidos por 15 dias em Aparecida acolheram a orientação do Papa e tomaram pelo método, pelo caminho da “prioridade da fé e da vida em Cristo”. Estamos, pois assistindo a uma feliz correção de rota da Igreja na América Latina e no Caribe.
Achylle A. Rubin
Minha última crônica termina falando de “correção da rota” da Igreja na América Latina e no Caribe. Trata-se da Vª Conferência de bispos representantes de nosso subcontinente, realizada em Aparecida do Norte, em maio último. Sendo a Igreja composta de pessoas sujeitas a erros e acertos, resulta natural que faça periodicamente avaliações e correções.
Tal processo iniciou na IVª Conferência realizada em Santo Domingo, em 1992, sob a forte influência de João Paulo II. O documento conclusivo dessa Conferência, abandonou o método de partir das realidades sociais, para partir da profissão de fé: “Bendizemos a Deus que... ‘enviou seu Filho, nascido de mulher’” (Gl 4,4), pois “o mistério do Reino, oculto durante séculos e gerações (Cl 1,26) e presente na vida e nas palavras de Jesus, identificado com sua pessoa, é dom do Pai” (nº 4,5)! Portanto se é dom do Pai, a “prioridade” não é dada às análises sociais, ao método “socioanalítico”, mas ao dom da fé.
Em Aparecida, Bento XVI deu o tom a toda a Conferência, manifestando sua expectativa: “... esperamos encontrar na comunhão em Cristo a vida, a verdadeira vida digna desse nome... Mas isto é mesmo assim? Estamos realmente convencidos de que Cristo é ‘o caminho, a verdade e a vida’?”. O Papa segue afirmando “a prioridade da fé e vida em Cristo” em relação a tudo o que se refere à vida cristã. A prioridade não será mais a realidade social, por mais urgente que apareça. Tal rumo representa uma verdadeira “correção de rota”.
A rota, neste caso, significa o método, definido pelo dicionário Aurélio como “caminho pelo qual se atinge um objetivo”. É caminho, ou procedimento para estudar um objeto.
Ora, cada objeto a ser estudado tem seu método e cada método seu objeto. Por exemplo, não posso estudar uma planta com o método com que estudo uma pedra. É como se, para ir a algum lugar, houvesse um único caminho. Tomando outro caminho, levaria a outro lugar. Um erro de caminho, de rota, exige correção, do contrário não se chega ao lugar desejado.
Pois bem, tomando o caminho, ou método, dos dados sócio-históricos, chamados de “socioanalítico”, não se chega às realidades reveladas por Deus. Chega-se mais próximo, isto sim, do “materialismo histórico”, do qual certos teólogos tiveram e têm muita dificuldade de se desfazerem. Felizmente outros, que acreditavam nesse caminho, voltam a crer e afirmar que se deve “partir da experiência de fé”.
Os bispos reunidos por 15 dias em Aparecida acolheram a orientação do Papa e tomaram pelo método, pelo caminho da “prioridade da fé e da vida em Cristo”. Estamos, pois assistindo a uma feliz correção de rota da Igreja na América Latina e no Caribe.
domingo, 18 de janeiro de 2009
CF 2009 e Documento de Aparecida
Pastilha 90
CF 2009 e Documento de Aparecida
A Campanha da Fraternidade deste ano se propõe “suscitar o debate sobre a segurança pública e contribuir para a promoção da cultura da paz...” (nº 4). O Texto-base, numa primeira parte, o “Ver”, ocupa-se longamente da análise da segurança, dos conflitos e da violência.
A segunda parte, o “Julgar”, contém considerações de fundamental valor. Entre ela, há uma que complementa o lema da CF que diz “A paz é fruto da justiça”, advertindo que a violência, as guerras, pretendem fundamentar a justiça. Entretanto, “no Evangelho, o Sermão da Montanha apresenta a necessidade da superação dos relacionamentos marcados pelo ódio e pela vingança. Apresenta também que a misericórdia de Deus... tem como ponto de partida a misericórdia de todos com os seus irmãos e irmãs (cf Mt 7,1-2). Ainda, “o Evangelho de São Lucas, de um modo especial, mostra as parábolas da misericórdia para que todos aprendam que a verdadeira justiça é a que quer a superação e não a condenação” (nº 245-246; cf João Paulo II, Dives in misericórdia; Rubin A. Eterna é sua Misericórdia, cap. Cinco).
Tais afirmações relativizam toda a primeira parte do Texto-base, elevando as atenções a um outro patamar, a um nível que visa responder, não somente ao “ver” das conjunturas sociais do momento, mas ao “ver” as conjunturas de todos os tempos, de acordo com a contemporaneidade perene de Jesus – ontem, hoje e sempre. Tal contemporaneidade de Jesus, com efeito, nos convida a não nos distrair com considerações circunstanciais e passageiras, de medo de sermos rotulados de conservadores, correndo, porém, o risco já denunciado de “supormos” a Pessoa de Cristo e a vida nova em Cristo.
Entretanto, o Documento de Aparecida não podia ser mais explícito, desde sua “Introdução” a respeito disso. Quase ao acaso encontramos lá afirmações como as seguintes:
1) “O que nos define não são as circunstâncias dramáticas da vida, nem os desafios da sociedade ou as tarefas que devemos empreender, mas acima de tudo o amor recebido do Pai graças a Jesus Cristo pela unção do Espírito Santo. Essa prioridade fundamental é a que tem presidido todos os nossos trabalhos... enquanto elevamos ao Espírito Santo nossa confiante súplica para redescobrir a beleza e alegria de ser cristãos” (nº 14; cf Discurso Inaugural, inciso 3).
2) “Trata-se de confirmar, renovar e revitalizar a novidade do Evangelho..., a partir de um encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo... Isso não depende tanto de grandes programas e estruturas, mas de homens e mulheres novos que encarnem essa tradição e novidade... protagonistas de uma vida nova...” (nº 11).
3) “Nossa maior ameaça ‘é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez’”. A todos nos toca recomeçar a partir de Cristo, reconhecendo que ‘não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande idéia, mas pelo encontro com um acontecimento, uma Pessoa’...” (nº 12).
Desde a introdução, portanto, o DA aponta para a “luz” que vai iluminando todas as suas páginas. Quando, por exemplo, inicia a Primeira Parte, afirmando que “este documento faz uso do método “ver, julgar e agir”, não deixa de ser coerente com as citações acima, ao descrever o sentido novo desse método, da seguinte maneira: a) “Este método implica em contemplar a Deus com os olhos da fé através de sua Palavra revelada..., a fim de que vejamos (“ver”) a realidade que nos circunda à luz de sua providência e; b) a julguemos (a realidade, “julgar”) segundo Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida...” e, finalmente, c) “atuemos (“agir”) a partir da Igreja, Corpo Místico de Cristo e Sacramento universal de salvação...” (nº 19).
O recém beatificado Antônio Rosmini, escreveu no século 19, antes da era do diálogo, um livro corajoso que lhe valeu muitas censuras, com o título As cinco chagas da Igreja. Hoje, na época do diálogo, poderíamos apontar uma só chaga. Identifico-a nos artigos que frei Clodovis Boff publicou nos números de outubro de 2007 e de outubro de 2008 na Revista Eclesiástica Brasileira (REB), insistindo que em termos de teologia e espiritualidade só se pode começar a partir da fé.
Parece, com efeito, estar tão infiltradas, em amplos segmentos de nossa Igreja no Brasil e alhures, convicções e linguagem de que tudo deve começar, tanto a teologia como a espiritualidade, das análises das conjunturas sociais, que não será fácil opor-se a isso. Haja vista na mesma REB as reações de Leonardo Boff, e frei Carlos Susin, entre outros, contra os artigos de frei Clodovis. Crê-se que todo dinamismo evangelizador deve brotar da “indignação” diante das injustiças sociais, marcadamente da pobreza injusta, e não mais da fé em Jesus Cristo, da “beleza e da alegria de ser cristãos”, como se lia outrora a respeito dos primeiros cristãos.
Pe. Achylle Alexio Rubin / achyllerubin@yahoo.com.br
CF 2009 e Documento de Aparecida
A Campanha da Fraternidade deste ano se propõe “suscitar o debate sobre a segurança pública e contribuir para a promoção da cultura da paz...” (nº 4). O Texto-base, numa primeira parte, o “Ver”, ocupa-se longamente da análise da segurança, dos conflitos e da violência.
A segunda parte, o “Julgar”, contém considerações de fundamental valor. Entre ela, há uma que complementa o lema da CF que diz “A paz é fruto da justiça”, advertindo que a violência, as guerras, pretendem fundamentar a justiça. Entretanto, “no Evangelho, o Sermão da Montanha apresenta a necessidade da superação dos relacionamentos marcados pelo ódio e pela vingança. Apresenta também que a misericórdia de Deus... tem como ponto de partida a misericórdia de todos com os seus irmãos e irmãs (cf Mt 7,1-2). Ainda, “o Evangelho de São Lucas, de um modo especial, mostra as parábolas da misericórdia para que todos aprendam que a verdadeira justiça é a que quer a superação e não a condenação” (nº 245-246; cf João Paulo II, Dives in misericórdia; Rubin A. Eterna é sua Misericórdia, cap. Cinco).
Tais afirmações relativizam toda a primeira parte do Texto-base, elevando as atenções a um outro patamar, a um nível que visa responder, não somente ao “ver” das conjunturas sociais do momento, mas ao “ver” as conjunturas de todos os tempos, de acordo com a contemporaneidade perene de Jesus – ontem, hoje e sempre. Tal contemporaneidade de Jesus, com efeito, nos convida a não nos distrair com considerações circunstanciais e passageiras, de medo de sermos rotulados de conservadores, correndo, porém, o risco já denunciado de “supormos” a Pessoa de Cristo e a vida nova em Cristo.
Entretanto, o Documento de Aparecida não podia ser mais explícito, desde sua “Introdução” a respeito disso. Quase ao acaso encontramos lá afirmações como as seguintes:
1) “O que nos define não são as circunstâncias dramáticas da vida, nem os desafios da sociedade ou as tarefas que devemos empreender, mas acima de tudo o amor recebido do Pai graças a Jesus Cristo pela unção do Espírito Santo. Essa prioridade fundamental é a que tem presidido todos os nossos trabalhos... enquanto elevamos ao Espírito Santo nossa confiante súplica para redescobrir a beleza e alegria de ser cristãos” (nº 14; cf Discurso Inaugural, inciso 3).
2) “Trata-se de confirmar, renovar e revitalizar a novidade do Evangelho..., a partir de um encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo... Isso não depende tanto de grandes programas e estruturas, mas de homens e mulheres novos que encarnem essa tradição e novidade... protagonistas de uma vida nova...” (nº 11).
3) “Nossa maior ameaça ‘é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez’”. A todos nos toca recomeçar a partir de Cristo, reconhecendo que ‘não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande idéia, mas pelo encontro com um acontecimento, uma Pessoa’...” (nº 12).
Desde a introdução, portanto, o DA aponta para a “luz” que vai iluminando todas as suas páginas. Quando, por exemplo, inicia a Primeira Parte, afirmando que “este documento faz uso do método “ver, julgar e agir”, não deixa de ser coerente com as citações acima, ao descrever o sentido novo desse método, da seguinte maneira: a) “Este método implica em contemplar a Deus com os olhos da fé através de sua Palavra revelada..., a fim de que vejamos (“ver”) a realidade que nos circunda à luz de sua providência e; b) a julguemos (a realidade, “julgar”) segundo Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida...” e, finalmente, c) “atuemos (“agir”) a partir da Igreja, Corpo Místico de Cristo e Sacramento universal de salvação...” (nº 19).
O recém beatificado Antônio Rosmini, escreveu no século 19, antes da era do diálogo, um livro corajoso que lhe valeu muitas censuras, com o título As cinco chagas da Igreja. Hoje, na época do diálogo, poderíamos apontar uma só chaga. Identifico-a nos artigos que frei Clodovis Boff publicou nos números de outubro de 2007 e de outubro de 2008 na Revista Eclesiástica Brasileira (REB), insistindo que em termos de teologia e espiritualidade só se pode começar a partir da fé.
Parece, com efeito, estar tão infiltradas, em amplos segmentos de nossa Igreja no Brasil e alhures, convicções e linguagem de que tudo deve começar, tanto a teologia como a espiritualidade, das análises das conjunturas sociais, que não será fácil opor-se a isso. Haja vista na mesma REB as reações de Leonardo Boff, e frei Carlos Susin, entre outros, contra os artigos de frei Clodovis. Crê-se que todo dinamismo evangelizador deve brotar da “indignação” diante das injustiças sociais, marcadamente da pobreza injusta, e não mais da fé em Jesus Cristo, da “beleza e da alegria de ser cristãos”, como se lia outrora a respeito dos primeiros cristãos.
Pe. Achylle Alexio Rubin / achyllerubin@yahoo.com.br
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Catolicismo e meio ambiente
Catolicismo e meio ambiente
Introdução
Trata-se do tema Religiões e meio ambiente. Fui convidado a falar sobre Catolicismo e meio ambiente.
Como primeira tarefa, a título de introdução, vou começar por aclarar brevemente o próprio título desta palestra. Em primeiro lugar, sobre o catolicismo não seria necessário dizer muito. Suponho estar falando a um público razoavelmente informado a respeito. Não obstante chamo atenção para alguns aspetos.
A religião católica é uma religião cristã, por constituída de pessoas que crêem em Deus por Jesus Cristo, Filho de Deus. A fé em Jesus Cristo é amparada, por assim dizer, num tripé: a Bíblia, a comunidade de fé, e o magistério da Igreja.
O catolicismo reconhece a Bíblia como primeiro fundamento, tanto o Antigo como, sobretudo, o Novo Testamento. A Bíblia é também caracterizada como Sagrada Escritura. O catolicismo a reconhece como um livro diferente, um livro que contém a revelação por parte de Deus de suas obras e de suas intenções a respeito do homem. Esse livro é por isso chamado de “Palavra de Deus”.
É na verdade uma palavra original porque não trata apenas da palavra como símbolo de um saber intelectual, mas trata da manifestação, por assim dizer do esforço de Deus por desejar estabelecer relações de intimidade com os homens. Não é uma ciência, no sentido moderno, mas nos manifesta a intenção de pessoas que vêm ao encontro dos homens. Daí que os dois Testamentos são ainda chamados de Antiga e Nova Aliança, pois aliança diz respeito a uma relação entre pessoas.
O Apóstolo e evangelista João, no prólogo de seu Evangelho, chamou Jesus Cristo de “Verbo”, quer dizer, Palavra. Palavra de Deus indica aqui, por eminência, o próprio Jesus Cristo. Portanto, “palavra” designa a pessoa de Jesus Cristo, que veio para nos mostrar o Pai. Como toda palavra manifesta um sentido, um conceito, é a imagem da coisa em nossa mente, assim também Jesus, o Verbo, é imagem perfeita do Pai. Foi por isso que, quando um Apóstolo perguntou a Jesus: “Mostra-no o Pai”, Jesus respondeu: “Aquele que me viu, viu também o Pai” (Jo 14,9).
Sendo pessoa, a palavra representa uma linguagem original, cujo sentido é captado por outro método diferente daquele das ciências. A hermenêutica neste caso tem uma importância relativa. Necessitamos de uma outra luz para descobrirmos seu significado pleno. Chama-se de luz da fé que ilumina a mente. Não só luz mas também “calor”, pois aquece o coração. Isso é coisa própria do amor, da intimidade de pessoas. Sendo que se trata de intimidade de pessoas, a Palavra de Deus se torna um acontecimento, uma vivência.
Há incontáveis exemplos, antigos e atuais, desse acontecer na pessoa de quem tem fé. São Justino, filósofo pagão, apenas 150 anos depois de Cristo, converteu-se ao cristianismo, ao ler a Bíblia, graças ao conselho de um velhinho misterioso, que lhe falou dos profetas que “haviam anunciado somente a verdade”. Justino tomou a Bíblia e nos conta: “A minha alma, de repente ficou iluminada por um fogo como se fora a luz do meio dia. Senti-me enamorado dos profetas e das pessoas amigas de Cristo. Pensei e repensei em todas aquelas palavras e entendi: entendi que esta é a única verdadeira e útil filosofia. É assim que sou filósofo. Gostaria, aliás, que todos experimentassem o que eu sinto e que não se afastassem da doutrina do Salvador”[1].
Outro exemplo mais caseiro é o do Sr. João Luiz Pozzobon. A certa altura de suas caminhadas por muitas estradas, visitando famílias e escolas, rezando o rosário e dando catequese, não se conteve e exclamou na minha presença: “Se me encontrarem morto na beira da estrada, saibam que morri de alegria!”. A alegria provinha da presença divina em seu coração.
Exemplos como esses ilustram o segundo “pé” sobre o qual se apóia a Igreja Católica que é a vida de fé da comunidade. Quando através dos tempos toda a comunidade vive da fé em algum elemento relacionado com Deus, admite-se tal acontecimento como coisa verdadeira.
O terceiro pé sobre o qual se fundamenta o catolicismo reside no chamado “Magistério da Igreja”. Funda-se na incumbência dada por Cristo a Pedro e aos Apóstolos com Pedro, de serem os garantes da unidade da vida dos discípulos e também os testemunhas na confirmação da fé. Encontramos tal incumbência em todos os quatro Evangelhos. No de Mateus basta recordar o episódio da confissão de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo! Jesus então lhe disse: ‘... eu te declaro: tu es Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja...eu te darei as chaves do reino dos céus, e tudo o que desligares na terra, será desligado nos céus” (Mt 16,16s; cf 18,18; 28,18).
Na última ceia, Jesus incumbe a Pedro de confirmar os demais: “... eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos” (Lc 22,32). Finalmente, por três vezes, Jesus pergunta a Pedro se o ama e por três vezes lhe diz: “apascenta os meus cordeiros” (Jo 21,15s). Apascentar é uma imagem para dizer convoca, vela, defenda... como faz o pastor.
O outro conceito que está em nosso título é “Meio Ambiente”. Aqui também não será preciso dizer muito porque dele se fala em toda parte, nas escolas e em todos os meios de comunicação. A própria palavra indica o sentido. Trata-se do lugar e dos elementos que compõem o habitat dos seres vivos e, sobretudo, dos humanos. O Aurélio o define como “lugar onde se vive, com suas características e condicionamentos geofísicos”. Compõe-se de muitos fatores: a terra, a água, o ar, a luz, a flora, a fauna, os resíduos da era tecnológica e sua influência sobre o meio ambiente. Portanto, tudo o que entra a fazer parte do “lugar onde se vive”.
Mas o conceito de meio ambiente engloba ainda, e sobretudo, o equilíbrio entre esses fatores de sorte a fazer com que esse lugar se torne adequado para a vida. Pelo meio ambiente iniciamos a consideração.
1. Deus criou o meio ambiente
Todo e qualquer tema que o catolicismo como tal tem em vista, o trata com uma ciência própria, que é a teologia. A teologia trata de todo conhecimento que Deus nos tem revelado. E, se é revelado, isto significa que, num primeiro momento, representa um conhecimento que vem de Deus a nosso respeito e a respeito do universo. Só num segundo momento torna-se um conhecimento nosso, uma ciência. Assim que nossa ciência teológica baseia-se sobre fatos e palavras reveladas. É um conhecimento que se encontra na Bíblia, na fé da comunidade cristã e no magistério da Igreja, como vimos.
O que então nos dizem essas três fontes acerca do “meio ambiente”? A primeira delas é a Sagrada Escritura.
Pois bem, desde suas primeiras páginas ela nos fala, nada menos do que do meio ambiente. Isto é, os dois primeiros capítulos tratam da criação do meio ambiente para o homem. Justamente, toda a Bíblia começa assim: “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gen 1,1). Em seguida especifica. Cria a luz; separa as águas da terra para fazê-la habitável; cria os vegetais, os astros, os peixes e animais que habitam nas águas, todo tipo de animais terrestres. Diz textualmente: “Produza a terra seres vivos segundo a sua espécie...” (Gen 1,24). Terminado de criar todo esse ambiente, a Bíblia diz: “E Deus viu que isto era bom”.
Preparado o ambiente, Deus criou para habitá-lo o homem e a mulher e os criou “à sua imagem e semelhança” (Gen 1,27). E lhes entregou tudo como um dom precioso: “Eis que eu vos dou toda a erva..., todas as árvores..., todos os animais..., todas as aves..., e tudo em que haja sopro de vida...” (Gen 1,29s). Depois desse dom, terminada a obra da criação, a Bíblia completa: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gen 1,31).
Portanto, a Sagrada Escritura tem uma visão positiva a respeito do meio ambiente. Alguns acharam que há nessa descrição um elemento negativo, referindo-se ao versículo 28 do capítulo primeiro, em que Deus diz: “...enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais...”. Aqui não podemos deixar de levar em conta que as palavras são meros símbolos que simbolizam significados que variam conforme as diversas línguas, as culturas diversas e as diversas épocas. A palavra “dominar” hoje adquiriu significados negativos. Foi-lhe atribuído o sentido de arbítrio sobre pessoas e coisas. Entretanto ela deriva de dominus, em latim, que significa senhor e não tem necessariamente o significado negativo de patrão despótico. Ademais, logo adiante a Bíblia diz que Deus doou tudo ao homem “para ver como o homem os havia de chamar... e o homem pôs nomes a todos os animais, a todas as aves...” (Gen 2,19-20). Ora, pôr nome é um gesto de carinho e de paternidade e não de dominação, no sentido moderno. A dominação veio após.
Depois do episódio do dilúvio, Deus manifesta ainda seu apreço pela natureza, pelo meio ambiente. Estabelece uma aliança “convosco e com vossa posteridade, assim como com todos os seres vivos..., as aves, os animais domésticos, todos os animais selvagens...” (Gen 9,8s).
2. Donde veio a dominação e o desperdício da natureza?
Na época em que a Escritura Sagrada foi escrita, fazia-se a mesma pergunta angustiante que hoje nos fazemos: Se Deus disse que “tudo era muito bom”, se Deus é bom, donde veio a maldade humana, que reside em nós e tem – hoje, todos o sabemos – tanta repercussão destruidora de nós mesmos e do meio ambiente em que vivemos?
Há em nós tendências para o mal, para a destruição. Facilmente satisfazemos tais tendências em detrimento da harmonia de nosso ser, da sociedade e da natureza, na ilusão de encontrarmos realização pessoal.
A resposta da Bíblia está descrita no capítulo três do Gênesis. Com uma alegoria, esse capítulo nos descreve um acontecimento de grande e universal importância. Aí encontramos certa explicação para o problema do mal no mundo. Isto é, descreve-se a origem da maldade humana. Onde reside tal origem?
Hoje, por exemplo, os comentaristas, diante da crise financeira, estão de acordo em afirmar que a origem dela é a “ganância”. Mas, donde veio a ganância? Outros generalizam mais, falando do egoísmo que mora em nós. E o egoísmo donde veio?
Precisamos olhar para a referida alegoria para ver a origem do mal. O maligno, no símbolo da serpente, explorou exatamente nossa natureza de seres dotados de espírito que conhecem e amam e que aspiram insaciavelmente o infinito, na posse de Deus. Por criação somos um vazio, vazio de Deus.
Até Jean Paul Sartre, filósofo contemporâneo, reconheceu essa nossa realidade insaciável, esse vazio de Deus, mas como ateu contumaz, declarou que esse anseio não tem finalização, não tem sentido, já que Deus não existe. Em razão disso definiu o homem como “uma paixão inútil”.
Foi exatamente o que o tentador explorou: o anseio por preencher o vazio, propondo ao homem separar-se de Deus, pois, unido a ele estaria de olhos fechados, sem rumo, enquanto que separados dele “vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gen 3,1-5).
Desde então, como por um processo genético, o afastamento de Deus, em lugar de abrir os olhos, produziu a verdadeira cegueira. Desde então vivemos da ilusão de nossos “olhos” de enchermos o vazio de Deus com sucedâneos, como são os prazeres, as riquezas, a cobiça, o orgulho, a dominação.
O grande filósofo pagão, Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, escreve que o néscio se ilude “colocando a felicidade nos prazeres, nas riquezas e nas honras. O sábio, porém, coloca a felicidade no Sumo Bem”. Essa “ignorância” é o que desorganiza nossa natureza e também o mundo ao nosso redor.
O primeiro desequilíbrio está em nosso próprio ser e, a seguir, o transferimos ao nosso meio ambiente. Não que os prazeres, as riquezas, a ambição etc. sejam maus. O são desde que se sobreponham às outras dimensões de nosso ser. Se julgamos, com efeito, que a crise financeira atual brota da “ganância”, isto significa que se pretende ser como Deus, acima do bem e do mal, encaminhando tudo em proveito do “ego”, ainda que tenha de dilapidar a natureza.
Eis a causa do desperdício do meio ambiente: já que não enchemos o vazio de Deus com o objeto próprio, que é Deus, tentamos insaciavelmente preenchê-lo com sucedâneos, com ersatz. E nessa corrida não há limites. Somos insaciáveis porque o desejo é de infinito.
3. O resgate do meio ambiente
A Bíblia em sua divisão clássica compõe-se de duas partes, o Antigo e o Novo Testamento. Mas, para efeito do que estamos tratando, poder-se-ia dividi-la como primeira parte, os dois primeiros capítulos, os da criação e os da queda com suas conseqüências e como segunda parte todos os demais capítulos.
O meio ambiente já não será mais tranqüilo e pacífico. Deus disse a Adão: ... “maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento... Ela te produzirá espinhos e abrolhos... Comerás o teu pão com o suor do teu rosto...” (Gen 3, 17-19). Isso quer dizer que rebelado o homem, toda a natureza, ambiente se tornou adversa, não por sua causa, mas por causa do homem. Antes a natureza era jardim do Éden, depois, se tornou o “vale de lágrimas”.
A partir daí, entretanto, a natureza toda, os homens, em primeiro lugar, não foram abandonados. Deus começa a falar em uma aliança com o homem e com a natureza, sobretudo a partir do capitulo 12 do livro do Gênesis, quando escolhe Abraão e lhe diz: “Faço aliança contigo e com tua posteridade, uma aliança eterna, de geração em geração, para que eu seja o teu Deus e o Deus de tua posteridade” (Gen 17,7).
Toda a Bíblia passa a representar o esforço, por assim dizer, que Deus faz para resgatar o homem e, com o homem, a natureza, o meio ambiente. Quem melhor expressou isso, com palavras certas, foi São Paulo. Escreve ele: ... “A criação foi sujeita à vaidade – não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou – todavia, com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até ao presente dia. Não só ela, mas também nós...” (Rom 8,19-22).
A natureza toda, portanto, assim como participou da escravidão do pecado, traduzida em depredação, também esteve destinada a participar da “liberdade dos filhos de Deus”. Essa liberdade refere-se ao fato inimaginável, impensável, surpreendente, do Filho de Deus que se faz natureza, que assume uma natureza humana, vive ligado intimamente à natureza, à terra, à água, aos montes, ao lago, às aves, aos animais, às plantas, à videira, à oliveira, aos trigais, às flores, aos lírios do campo, enfim a toda a natureza, como meio ambiente do homem.
Ao assumir a natureza humana, assume junto todo o meio ambiente, a morada por ele próprio preparada para o homem. A decadência do homem, como vimos, significou a decadência de seu meio ambiente. Pois, a natureza toda está ordenada ao seu Criador, mediante a criatura racional. Esta criatura, dotada de consciência, tem por fim exercer a mediação de toda a natureza desprovida de razão, de consciência.
Assim, a elevação do homem, o enobrecimento do homem vai representar a elevação, o enobrecimento do meio ambiente. Foi por isso que desde os primeiros cristãos se tem dito que Deus se fez homem a fim de fazer dos homens deuses. Agora a proposta do tentador, insinuando a Eva que o afastamento de Deus resultaria em sermos deuses, foi realizada, não por obra e graça do próprio homem, mas por Jesus Cristo. Da mesma forma poderíamos dizer que Deus se faz natureza a fim de fazer da natureza coisa divina. Ele não desdenha em nada do homem como da natureza, do meio ambiente. Ao contrário, ao resgatar o homem, resgata com ele tudo o mais.
Foi isso que nos ensinou São Paulo na carta aos Romanos, há pouco citada. Toda a criação, “geme e sofre como que dores de parto até o presente dia, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus”. Assim que, o resgate do homem vai significar o resgate do meio ambiente. Nesse clima não há lugar para a depredação.
4. A Igreja Católica e o meio ambiente
Estou falando do catolicismo e do meio ambiente. Ora o catolicismo é representado pela instituição Igreja Católica. Cremos que Jesus Cristo confiou a Pedro e aos Apóstolos e seus sucessores o chamado “depósito da fé”, recordado na introdução.
Como instituição cabe perguntar-nos não só sobre a opinião das autoridades eclesiásticas a respeito do meio ambiente, como também a opinião e prática entre os membros dessa instituição.
Em primeiro lugar, sobre a opinião das autoridades basta que citemos as palavras do Papa João Paulo II proferidas na Zona Austral do Chile, Punta Arenas, no dia 04 de abril de 1987:
“Desde o Cone Sul do Continente Americano e frente aos ilimitados espaços da Antártica, lanço um chamado a todos os responsáveis de nosso planeta para proteger e conservar a natureza criada por Deus: não permitamos que nosso mundo seja uma terra cada vez mais degradada e degradante”[2].
Bento XVI igualmente, “em seu discurso aos jovens, no Estádio do Pacaembu, inicio de maio do ano passado, chamou a atenção sobre a ‘devastação ambiental da Amazônia’... e pediu aos jovens ‘um maior compromisso nos mais diversos espaços de ação’”[3].
O Catecismo oficial da Igreja Católica (Cat.), publicado em 1992, traz longo capítulo sobre a criação. Depois de falar da criação, toda feita para o homem, cita um sermão de São Pedro Crisólogo, do século V: “Quem é pois o ser que vai vir à existência cercado de tal consideração? É o homem... é para ele que existem o céu e a terra e o mar e a totalidade da criação” (Cat.nº 358).
Portanto, por dois motivos Deus tudo criou, para a manifestação de sua glória e para nossa felicidade. Ora, tendo “todas as criaturas o mesmo Criador e de todas estarem ordenadas para sua glória... existe uma solidariedade entre todas elas” (Cat. Nº 344). Tal solidariedade fundamenta a admiração e o respeito para com todo nosso meio ambiente.
A estas alturas o catecismo cita um trecho da poesia de São Francisco de Assis, O Cântico do irmão Sol:
Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o senhor irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia
E ele é belo e radiante
Com grande esplendor
De ti, Altíssimo, é a imagem.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado,
Ou sereno, e todo o tempo,
Pelo qual às tuas criaturas dás sustento.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã água.
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta...
Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão fogo
Pelo qual iluminas a noite
E ele é belo e jucundo
E vigoroso e forte.
Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã, a mãe Terra,
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas...
Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande humildade[4]
Não podemos estranhar que São Francisco de Assis seja considerado o patrono da ecologia, do meio ambiente. Seus biógrafos descrevem quanto ele respeitava a natureza e quanto sofria quando se maltratavam animais ou vegetais[5].
Encontramos sobre o meio ambiente orientações da Igreja Católica de grande valor e muito atuais no Documento de Aparecida (DA), texto conclusivo da V Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. As cinco Conferências do Episcopado realizadas desde 1955 foram de grande importância para orientar a ação pastoral da Igreja em nossas regiões, mas também foram acolhidas e aprovados por toda a Igreja.
Segundo esse documento, o meio ambiente é tratado à luz de dois fatos de extraordinária importância, a criação e a redenção.
Pela criação valoriza-se a natureza toda como nosso ‘hábitat’ por Deus mesmo preparado para nós, como vimos de início. Pois, “o Deus da vida encomendou ao ser humano sua obra criadora para que ‘a cultivasse e a guardasse’” (DA, nº 470). Em conseqüência, “o homem e a mulher são convocados a viver em comunhão com Ele, em comunhão entre si e com toda a criação” (ib). Por isso, citando São Francisco de Assis, afirma “’nossa irmã e mãe terra’ é nossa casa comum e o lugar da aliança de Deus com os seres humanos e com toda a criação”. Por isso, “desatender as mútuas relações e o equilíbrio que o próprio Deus estabeleceu entre as realidades criadas, é uma ofensa ao Criador...” (DA nº125).
Pela redenção de Jesus Cristo, os seres humanos e toda a natureza foram “assumidos”, quer dizer elevados a um sumo, sendo Cristo a cabeça dos humanos e por eles de toda a natureza. São Paulo nos fala dessa relação ascendente para Cristo. Fala-nos do “desígnio” do Pai de “reunir em Cristo todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1,10). Em conseqüência escreve: “...tudo é vosso. Mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 22-23).
Nessa dupla perspectiva, da criação e da redenção, o catolicismo entende o respeito pelo meio ambiente, pois que tudo participa da divindade de Cristo.
O DA passa a denunciar que tal respeito não acontece. Escrevendo que “a América Latina é o Continente que possui uma das maiores biodiversidades do planeta e uma rica sócio-diversidade”, constata que “a natureza foi e continua sendo agredida; a terra foi depredada; as águas estão sendo tratadas como se fossem mercadoria negociável pelas empresas” tanto nacionais como internacionais. Referindo-se à Amazônia, diz que “a crescente agressão ao meio ambiente pode servir de pretexto para a proposta de internacionalização da Amazônia”. Segue afirmando que “constatamos o retrocesso das geleiras em todo o mundo: o degelo do Ártico, cujo impacto já está se vendo na flora e na fauna desse ecossistema; também o aquecimento global se faz sentir no estrondoso crepitar dos blocos de gelo ártico que reduzem a cobertura glacial do Continente e que regula o clima do mundo” (DA nº 83s).
Em particular, diz o documento que “a riqueza natural da América Latina e do Caribe experimenta hoje uma exploração irracional que vai deixando um rastro de dilapidação, inclusive de morte por toda a nossa região...” (DA nº473).
Em vista de tudo isso, o documento de Aparecida exorta a todos que “é necessário dar especial importância à mais grave destruição em curso da ecologia humana” (DA nº472). Em seguida apresenta-nos cinco ações práticas para todos os membros da Igreja, maximamente para a Igreja na América Latina e no Caribe:
a) “Evangelizar” sobre o grande dom da criação ao homem, “educando-o para um estilo de vida de sobriedade e austeridade solidária”.
b) Apoiar, sobretudo “as populações mais frágeis e ameaçadas pelo desenvolvimento predatório” no esforço por melhor “distribuição da terra, das águas e dos espaços urbanos”.
c) “Procurar um modelo de desenvolvimento alternativo...baseado numa ética” fundamentada no Evangelho.
d) Empenhar-se por “políticas públicas” de “proteção, conservação e restauração da natureza...”.
e) Buscar “medidas de monitoramento e controle social sobre a aplicação dos padrões ambientais...” (DA nº 463).
Nesse documento da V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe, temos, portanto, preciosos elementos que revelam quanto a Igreja Católica está preocupada com o meio ambiente, criado para o hábitat, a morada dos homens. É, portanto, em função do homem e de seu destino eterno que ela manifesta tanta preocupação, pois se trata do habitat por Deus mesmo criado para nós.
Conclusão
Felicito os promotores destas “Reflexões” sobre “Religiões e Meio Ambiente”, pois, as religiões, sobretudo as que se fundam na Bíblia, têm um grande apelo voltado ao amor por nossa casa comum onde vivemos. É a casa que Deus nosso Pai preparou com muito carinho para nós. Devemos para isso unir esforços.
Não há dúvida, houve um grande progresso na consciência ecológica de todos. Recordo que eu mesmo, na minha infância, não conseguia entender as restrições das primeiras leis de proteção aos animais e às plantas. Perguntava-me por que tais restrições se tudo me parecia tão abundante.
Falei do carinho com que Deus preparou nossa habitação. A sensibilidade pela natureza está muito relacionada com a experiência de um grande amor.
Penso que o amor é capaz de enriquecer nosso sentir pela natureza, como aconteceu com São Francisco de Assis e muitíssimos outros.
Uma coisa aliás controversa, um grande amor nos faz sentir-nos em comunhão com a natureza. Pode ser razoavelmente plausível o que muitos acreditam que podemos ter experiências chamadas de holísticas, oceânicas, de trans-consciência, uma espécie da identificação com o Cosmos. Basta citar os escritos de Fridjof Capra.
Acontece em algumas religiões, como na católica, uma espécie de identificação no amor com toda a criação. Poderia citar muitos exemplos. Permito-me narrar apenas um: Vive ainda uma mulher russa, Tatiana Guritcheva, professora de filosofia marxista, insatisfeita com sua filosofia e muito inquieta, por encontrar um sentido para a vida. Buscou todo tipo de experiências na linha do sexo e das drogas. Nessa busca terminou aderindo à ioga. Decorou vários mantras, entre eles até o Pai Nosso. No livro por ela escrito intitulado, Falar de Deus é perigoso, ela nos narra:
“Eis que um dia (tinha vinte e seis anos, então), eu caminhava por um campo, dizendo as palavras do Pai Nosso. Depois de tê-lo repetido umas seis vezes, sem ter a menor fé na existência de um ‘Pai celeste’, recebi subitamente a resposta. A coisa mais inesperada, mais inimaginável me aconteceu. Tornou-se claro para mim que Ele existia. Não o deus anônimo dos iogues, mas o Pai dos Céus, cheio de amor. Ele me amava e amava todas as coisas que me estavam ao redor. Tudo ficou tão claro para mim, como se estivéssemos no primeiro dia da Criação. A pobre paisagem em torno se iluminou de uma alegria incomum, cada planta, cada folha parecia fremir de júbilo. Dir-se-ia que o mundo inteiro acabava de sair de suas mãos extravasantes de amor. Naquele momento, eu nasci de novo”.
Depois dessa virada em sua vida ela foi expulsa da Rússia e, após viajar pelo mundo dando palestras, fundou um escritório na Alemanha, a fim de angariar fundos para as crianças abandonadas, sobretudo da África.
[1] Diálogus, 8; cf Cola, Silvano, Operários da Primeira Hora, Cidade Nova Editora, tradução Pepe, Enrico, 2ª ed. 1987, 14.
[2] Citado no Documento de Aparecida, nº 87.
[3] Ib nº 85.
[4] (Cat. 344; cf São Francisco de Assis, escritos e biografias, Vozes 1996, p.70s).
[5] Cf Inácio Larrañaga, O Irmão de Assis, Paulinas, 1980, p 102s.
Introdução
Trata-se do tema Religiões e meio ambiente. Fui convidado a falar sobre Catolicismo e meio ambiente.
Como primeira tarefa, a título de introdução, vou começar por aclarar brevemente o próprio título desta palestra. Em primeiro lugar, sobre o catolicismo não seria necessário dizer muito. Suponho estar falando a um público razoavelmente informado a respeito. Não obstante chamo atenção para alguns aspetos.
A religião católica é uma religião cristã, por constituída de pessoas que crêem em Deus por Jesus Cristo, Filho de Deus. A fé em Jesus Cristo é amparada, por assim dizer, num tripé: a Bíblia, a comunidade de fé, e o magistério da Igreja.
O catolicismo reconhece a Bíblia como primeiro fundamento, tanto o Antigo como, sobretudo, o Novo Testamento. A Bíblia é também caracterizada como Sagrada Escritura. O catolicismo a reconhece como um livro diferente, um livro que contém a revelação por parte de Deus de suas obras e de suas intenções a respeito do homem. Esse livro é por isso chamado de “Palavra de Deus”.
É na verdade uma palavra original porque não trata apenas da palavra como símbolo de um saber intelectual, mas trata da manifestação, por assim dizer do esforço de Deus por desejar estabelecer relações de intimidade com os homens. Não é uma ciência, no sentido moderno, mas nos manifesta a intenção de pessoas que vêm ao encontro dos homens. Daí que os dois Testamentos são ainda chamados de Antiga e Nova Aliança, pois aliança diz respeito a uma relação entre pessoas.
O Apóstolo e evangelista João, no prólogo de seu Evangelho, chamou Jesus Cristo de “Verbo”, quer dizer, Palavra. Palavra de Deus indica aqui, por eminência, o próprio Jesus Cristo. Portanto, “palavra” designa a pessoa de Jesus Cristo, que veio para nos mostrar o Pai. Como toda palavra manifesta um sentido, um conceito, é a imagem da coisa em nossa mente, assim também Jesus, o Verbo, é imagem perfeita do Pai. Foi por isso que, quando um Apóstolo perguntou a Jesus: “Mostra-no o Pai”, Jesus respondeu: “Aquele que me viu, viu também o Pai” (Jo 14,9).
Sendo pessoa, a palavra representa uma linguagem original, cujo sentido é captado por outro método diferente daquele das ciências. A hermenêutica neste caso tem uma importância relativa. Necessitamos de uma outra luz para descobrirmos seu significado pleno. Chama-se de luz da fé que ilumina a mente. Não só luz mas também “calor”, pois aquece o coração. Isso é coisa própria do amor, da intimidade de pessoas. Sendo que se trata de intimidade de pessoas, a Palavra de Deus se torna um acontecimento, uma vivência.
Há incontáveis exemplos, antigos e atuais, desse acontecer na pessoa de quem tem fé. São Justino, filósofo pagão, apenas 150 anos depois de Cristo, converteu-se ao cristianismo, ao ler a Bíblia, graças ao conselho de um velhinho misterioso, que lhe falou dos profetas que “haviam anunciado somente a verdade”. Justino tomou a Bíblia e nos conta: “A minha alma, de repente ficou iluminada por um fogo como se fora a luz do meio dia. Senti-me enamorado dos profetas e das pessoas amigas de Cristo. Pensei e repensei em todas aquelas palavras e entendi: entendi que esta é a única verdadeira e útil filosofia. É assim que sou filósofo. Gostaria, aliás, que todos experimentassem o que eu sinto e que não se afastassem da doutrina do Salvador”[1].
Outro exemplo mais caseiro é o do Sr. João Luiz Pozzobon. A certa altura de suas caminhadas por muitas estradas, visitando famílias e escolas, rezando o rosário e dando catequese, não se conteve e exclamou na minha presença: “Se me encontrarem morto na beira da estrada, saibam que morri de alegria!”. A alegria provinha da presença divina em seu coração.
Exemplos como esses ilustram o segundo “pé” sobre o qual se apóia a Igreja Católica que é a vida de fé da comunidade. Quando através dos tempos toda a comunidade vive da fé em algum elemento relacionado com Deus, admite-se tal acontecimento como coisa verdadeira.
O terceiro pé sobre o qual se fundamenta o catolicismo reside no chamado “Magistério da Igreja”. Funda-se na incumbência dada por Cristo a Pedro e aos Apóstolos com Pedro, de serem os garantes da unidade da vida dos discípulos e também os testemunhas na confirmação da fé. Encontramos tal incumbência em todos os quatro Evangelhos. No de Mateus basta recordar o episódio da confissão de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo! Jesus então lhe disse: ‘... eu te declaro: tu es Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja...eu te darei as chaves do reino dos céus, e tudo o que desligares na terra, será desligado nos céus” (Mt 16,16s; cf 18,18; 28,18).
Na última ceia, Jesus incumbe a Pedro de confirmar os demais: “... eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos” (Lc 22,32). Finalmente, por três vezes, Jesus pergunta a Pedro se o ama e por três vezes lhe diz: “apascenta os meus cordeiros” (Jo 21,15s). Apascentar é uma imagem para dizer convoca, vela, defenda... como faz o pastor.
O outro conceito que está em nosso título é “Meio Ambiente”. Aqui também não será preciso dizer muito porque dele se fala em toda parte, nas escolas e em todos os meios de comunicação. A própria palavra indica o sentido. Trata-se do lugar e dos elementos que compõem o habitat dos seres vivos e, sobretudo, dos humanos. O Aurélio o define como “lugar onde se vive, com suas características e condicionamentos geofísicos”. Compõe-se de muitos fatores: a terra, a água, o ar, a luz, a flora, a fauna, os resíduos da era tecnológica e sua influência sobre o meio ambiente. Portanto, tudo o que entra a fazer parte do “lugar onde se vive”.
Mas o conceito de meio ambiente engloba ainda, e sobretudo, o equilíbrio entre esses fatores de sorte a fazer com que esse lugar se torne adequado para a vida. Pelo meio ambiente iniciamos a consideração.
1. Deus criou o meio ambiente
Todo e qualquer tema que o catolicismo como tal tem em vista, o trata com uma ciência própria, que é a teologia. A teologia trata de todo conhecimento que Deus nos tem revelado. E, se é revelado, isto significa que, num primeiro momento, representa um conhecimento que vem de Deus a nosso respeito e a respeito do universo. Só num segundo momento torna-se um conhecimento nosso, uma ciência. Assim que nossa ciência teológica baseia-se sobre fatos e palavras reveladas. É um conhecimento que se encontra na Bíblia, na fé da comunidade cristã e no magistério da Igreja, como vimos.
O que então nos dizem essas três fontes acerca do “meio ambiente”? A primeira delas é a Sagrada Escritura.
Pois bem, desde suas primeiras páginas ela nos fala, nada menos do que do meio ambiente. Isto é, os dois primeiros capítulos tratam da criação do meio ambiente para o homem. Justamente, toda a Bíblia começa assim: “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gen 1,1). Em seguida especifica. Cria a luz; separa as águas da terra para fazê-la habitável; cria os vegetais, os astros, os peixes e animais que habitam nas águas, todo tipo de animais terrestres. Diz textualmente: “Produza a terra seres vivos segundo a sua espécie...” (Gen 1,24). Terminado de criar todo esse ambiente, a Bíblia diz: “E Deus viu que isto era bom”.
Preparado o ambiente, Deus criou para habitá-lo o homem e a mulher e os criou “à sua imagem e semelhança” (Gen 1,27). E lhes entregou tudo como um dom precioso: “Eis que eu vos dou toda a erva..., todas as árvores..., todos os animais..., todas as aves..., e tudo em que haja sopro de vida...” (Gen 1,29s). Depois desse dom, terminada a obra da criação, a Bíblia completa: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gen 1,31).
Portanto, a Sagrada Escritura tem uma visão positiva a respeito do meio ambiente. Alguns acharam que há nessa descrição um elemento negativo, referindo-se ao versículo 28 do capítulo primeiro, em que Deus diz: “...enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais...”. Aqui não podemos deixar de levar em conta que as palavras são meros símbolos que simbolizam significados que variam conforme as diversas línguas, as culturas diversas e as diversas épocas. A palavra “dominar” hoje adquiriu significados negativos. Foi-lhe atribuído o sentido de arbítrio sobre pessoas e coisas. Entretanto ela deriva de dominus, em latim, que significa senhor e não tem necessariamente o significado negativo de patrão despótico. Ademais, logo adiante a Bíblia diz que Deus doou tudo ao homem “para ver como o homem os havia de chamar... e o homem pôs nomes a todos os animais, a todas as aves...” (Gen 2,19-20). Ora, pôr nome é um gesto de carinho e de paternidade e não de dominação, no sentido moderno. A dominação veio após.
Depois do episódio do dilúvio, Deus manifesta ainda seu apreço pela natureza, pelo meio ambiente. Estabelece uma aliança “convosco e com vossa posteridade, assim como com todos os seres vivos..., as aves, os animais domésticos, todos os animais selvagens...” (Gen 9,8s).
2. Donde veio a dominação e o desperdício da natureza?
Na época em que a Escritura Sagrada foi escrita, fazia-se a mesma pergunta angustiante que hoje nos fazemos: Se Deus disse que “tudo era muito bom”, se Deus é bom, donde veio a maldade humana, que reside em nós e tem – hoje, todos o sabemos – tanta repercussão destruidora de nós mesmos e do meio ambiente em que vivemos?
Há em nós tendências para o mal, para a destruição. Facilmente satisfazemos tais tendências em detrimento da harmonia de nosso ser, da sociedade e da natureza, na ilusão de encontrarmos realização pessoal.
A resposta da Bíblia está descrita no capítulo três do Gênesis. Com uma alegoria, esse capítulo nos descreve um acontecimento de grande e universal importância. Aí encontramos certa explicação para o problema do mal no mundo. Isto é, descreve-se a origem da maldade humana. Onde reside tal origem?
Hoje, por exemplo, os comentaristas, diante da crise financeira, estão de acordo em afirmar que a origem dela é a “ganância”. Mas, donde veio a ganância? Outros generalizam mais, falando do egoísmo que mora em nós. E o egoísmo donde veio?
Precisamos olhar para a referida alegoria para ver a origem do mal. O maligno, no símbolo da serpente, explorou exatamente nossa natureza de seres dotados de espírito que conhecem e amam e que aspiram insaciavelmente o infinito, na posse de Deus. Por criação somos um vazio, vazio de Deus.
Até Jean Paul Sartre, filósofo contemporâneo, reconheceu essa nossa realidade insaciável, esse vazio de Deus, mas como ateu contumaz, declarou que esse anseio não tem finalização, não tem sentido, já que Deus não existe. Em razão disso definiu o homem como “uma paixão inútil”.
Foi exatamente o que o tentador explorou: o anseio por preencher o vazio, propondo ao homem separar-se de Deus, pois, unido a ele estaria de olhos fechados, sem rumo, enquanto que separados dele “vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gen 3,1-5).
Desde então, como por um processo genético, o afastamento de Deus, em lugar de abrir os olhos, produziu a verdadeira cegueira. Desde então vivemos da ilusão de nossos “olhos” de enchermos o vazio de Deus com sucedâneos, como são os prazeres, as riquezas, a cobiça, o orgulho, a dominação.
O grande filósofo pagão, Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, escreve que o néscio se ilude “colocando a felicidade nos prazeres, nas riquezas e nas honras. O sábio, porém, coloca a felicidade no Sumo Bem”. Essa “ignorância” é o que desorganiza nossa natureza e também o mundo ao nosso redor.
O primeiro desequilíbrio está em nosso próprio ser e, a seguir, o transferimos ao nosso meio ambiente. Não que os prazeres, as riquezas, a ambição etc. sejam maus. O são desde que se sobreponham às outras dimensões de nosso ser. Se julgamos, com efeito, que a crise financeira atual brota da “ganância”, isto significa que se pretende ser como Deus, acima do bem e do mal, encaminhando tudo em proveito do “ego”, ainda que tenha de dilapidar a natureza.
Eis a causa do desperdício do meio ambiente: já que não enchemos o vazio de Deus com o objeto próprio, que é Deus, tentamos insaciavelmente preenchê-lo com sucedâneos, com ersatz. E nessa corrida não há limites. Somos insaciáveis porque o desejo é de infinito.
3. O resgate do meio ambiente
A Bíblia em sua divisão clássica compõe-se de duas partes, o Antigo e o Novo Testamento. Mas, para efeito do que estamos tratando, poder-se-ia dividi-la como primeira parte, os dois primeiros capítulos, os da criação e os da queda com suas conseqüências e como segunda parte todos os demais capítulos.
O meio ambiente já não será mais tranqüilo e pacífico. Deus disse a Adão: ... “maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento... Ela te produzirá espinhos e abrolhos... Comerás o teu pão com o suor do teu rosto...” (Gen 3, 17-19). Isso quer dizer que rebelado o homem, toda a natureza, ambiente se tornou adversa, não por sua causa, mas por causa do homem. Antes a natureza era jardim do Éden, depois, se tornou o “vale de lágrimas”.
A partir daí, entretanto, a natureza toda, os homens, em primeiro lugar, não foram abandonados. Deus começa a falar em uma aliança com o homem e com a natureza, sobretudo a partir do capitulo 12 do livro do Gênesis, quando escolhe Abraão e lhe diz: “Faço aliança contigo e com tua posteridade, uma aliança eterna, de geração em geração, para que eu seja o teu Deus e o Deus de tua posteridade” (Gen 17,7).
Toda a Bíblia passa a representar o esforço, por assim dizer, que Deus faz para resgatar o homem e, com o homem, a natureza, o meio ambiente. Quem melhor expressou isso, com palavras certas, foi São Paulo. Escreve ele: ... “A criação foi sujeita à vaidade – não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou – todavia, com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até ao presente dia. Não só ela, mas também nós...” (Rom 8,19-22).
A natureza toda, portanto, assim como participou da escravidão do pecado, traduzida em depredação, também esteve destinada a participar da “liberdade dos filhos de Deus”. Essa liberdade refere-se ao fato inimaginável, impensável, surpreendente, do Filho de Deus que se faz natureza, que assume uma natureza humana, vive ligado intimamente à natureza, à terra, à água, aos montes, ao lago, às aves, aos animais, às plantas, à videira, à oliveira, aos trigais, às flores, aos lírios do campo, enfim a toda a natureza, como meio ambiente do homem.
Ao assumir a natureza humana, assume junto todo o meio ambiente, a morada por ele próprio preparada para o homem. A decadência do homem, como vimos, significou a decadência de seu meio ambiente. Pois, a natureza toda está ordenada ao seu Criador, mediante a criatura racional. Esta criatura, dotada de consciência, tem por fim exercer a mediação de toda a natureza desprovida de razão, de consciência.
Assim, a elevação do homem, o enobrecimento do homem vai representar a elevação, o enobrecimento do meio ambiente. Foi por isso que desde os primeiros cristãos se tem dito que Deus se fez homem a fim de fazer dos homens deuses. Agora a proposta do tentador, insinuando a Eva que o afastamento de Deus resultaria em sermos deuses, foi realizada, não por obra e graça do próprio homem, mas por Jesus Cristo. Da mesma forma poderíamos dizer que Deus se faz natureza a fim de fazer da natureza coisa divina. Ele não desdenha em nada do homem como da natureza, do meio ambiente. Ao contrário, ao resgatar o homem, resgata com ele tudo o mais.
Foi isso que nos ensinou São Paulo na carta aos Romanos, há pouco citada. Toda a criação, “geme e sofre como que dores de parto até o presente dia, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus”. Assim que, o resgate do homem vai significar o resgate do meio ambiente. Nesse clima não há lugar para a depredação.
4. A Igreja Católica e o meio ambiente
Estou falando do catolicismo e do meio ambiente. Ora o catolicismo é representado pela instituição Igreja Católica. Cremos que Jesus Cristo confiou a Pedro e aos Apóstolos e seus sucessores o chamado “depósito da fé”, recordado na introdução.
Como instituição cabe perguntar-nos não só sobre a opinião das autoridades eclesiásticas a respeito do meio ambiente, como também a opinião e prática entre os membros dessa instituição.
Em primeiro lugar, sobre a opinião das autoridades basta que citemos as palavras do Papa João Paulo II proferidas na Zona Austral do Chile, Punta Arenas, no dia 04 de abril de 1987:
“Desde o Cone Sul do Continente Americano e frente aos ilimitados espaços da Antártica, lanço um chamado a todos os responsáveis de nosso planeta para proteger e conservar a natureza criada por Deus: não permitamos que nosso mundo seja uma terra cada vez mais degradada e degradante”[2].
Bento XVI igualmente, “em seu discurso aos jovens, no Estádio do Pacaembu, inicio de maio do ano passado, chamou a atenção sobre a ‘devastação ambiental da Amazônia’... e pediu aos jovens ‘um maior compromisso nos mais diversos espaços de ação’”[3].
O Catecismo oficial da Igreja Católica (Cat.), publicado em 1992, traz longo capítulo sobre a criação. Depois de falar da criação, toda feita para o homem, cita um sermão de São Pedro Crisólogo, do século V: “Quem é pois o ser que vai vir à existência cercado de tal consideração? É o homem... é para ele que existem o céu e a terra e o mar e a totalidade da criação” (Cat.nº 358).
Portanto, por dois motivos Deus tudo criou, para a manifestação de sua glória e para nossa felicidade. Ora, tendo “todas as criaturas o mesmo Criador e de todas estarem ordenadas para sua glória... existe uma solidariedade entre todas elas” (Cat. Nº 344). Tal solidariedade fundamenta a admiração e o respeito para com todo nosso meio ambiente.
A estas alturas o catecismo cita um trecho da poesia de São Francisco de Assis, O Cântico do irmão Sol:
Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o senhor irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia
E ele é belo e radiante
Com grande esplendor
De ti, Altíssimo, é a imagem.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado,
Ou sereno, e todo o tempo,
Pelo qual às tuas criaturas dás sustento.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã água.
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta...
Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão fogo
Pelo qual iluminas a noite
E ele é belo e jucundo
E vigoroso e forte.
Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã, a mãe Terra,
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas...
Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande humildade[4]
Não podemos estranhar que São Francisco de Assis seja considerado o patrono da ecologia, do meio ambiente. Seus biógrafos descrevem quanto ele respeitava a natureza e quanto sofria quando se maltratavam animais ou vegetais[5].
Encontramos sobre o meio ambiente orientações da Igreja Católica de grande valor e muito atuais no Documento de Aparecida (DA), texto conclusivo da V Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. As cinco Conferências do Episcopado realizadas desde 1955 foram de grande importância para orientar a ação pastoral da Igreja em nossas regiões, mas também foram acolhidas e aprovados por toda a Igreja.
Segundo esse documento, o meio ambiente é tratado à luz de dois fatos de extraordinária importância, a criação e a redenção.
Pela criação valoriza-se a natureza toda como nosso ‘hábitat’ por Deus mesmo preparado para nós, como vimos de início. Pois, “o Deus da vida encomendou ao ser humano sua obra criadora para que ‘a cultivasse e a guardasse’” (DA, nº 470). Em conseqüência, “o homem e a mulher são convocados a viver em comunhão com Ele, em comunhão entre si e com toda a criação” (ib). Por isso, citando São Francisco de Assis, afirma “’nossa irmã e mãe terra’ é nossa casa comum e o lugar da aliança de Deus com os seres humanos e com toda a criação”. Por isso, “desatender as mútuas relações e o equilíbrio que o próprio Deus estabeleceu entre as realidades criadas, é uma ofensa ao Criador...” (DA nº125).
Pela redenção de Jesus Cristo, os seres humanos e toda a natureza foram “assumidos”, quer dizer elevados a um sumo, sendo Cristo a cabeça dos humanos e por eles de toda a natureza. São Paulo nos fala dessa relação ascendente para Cristo. Fala-nos do “desígnio” do Pai de “reunir em Cristo todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1,10). Em conseqüência escreve: “...tudo é vosso. Mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 22-23).
Nessa dupla perspectiva, da criação e da redenção, o catolicismo entende o respeito pelo meio ambiente, pois que tudo participa da divindade de Cristo.
O DA passa a denunciar que tal respeito não acontece. Escrevendo que “a América Latina é o Continente que possui uma das maiores biodiversidades do planeta e uma rica sócio-diversidade”, constata que “a natureza foi e continua sendo agredida; a terra foi depredada; as águas estão sendo tratadas como se fossem mercadoria negociável pelas empresas” tanto nacionais como internacionais. Referindo-se à Amazônia, diz que “a crescente agressão ao meio ambiente pode servir de pretexto para a proposta de internacionalização da Amazônia”. Segue afirmando que “constatamos o retrocesso das geleiras em todo o mundo: o degelo do Ártico, cujo impacto já está se vendo na flora e na fauna desse ecossistema; também o aquecimento global se faz sentir no estrondoso crepitar dos blocos de gelo ártico que reduzem a cobertura glacial do Continente e que regula o clima do mundo” (DA nº 83s).
Em particular, diz o documento que “a riqueza natural da América Latina e do Caribe experimenta hoje uma exploração irracional que vai deixando um rastro de dilapidação, inclusive de morte por toda a nossa região...” (DA nº473).
Em vista de tudo isso, o documento de Aparecida exorta a todos que “é necessário dar especial importância à mais grave destruição em curso da ecologia humana” (DA nº472). Em seguida apresenta-nos cinco ações práticas para todos os membros da Igreja, maximamente para a Igreja na América Latina e no Caribe:
a) “Evangelizar” sobre o grande dom da criação ao homem, “educando-o para um estilo de vida de sobriedade e austeridade solidária”.
b) Apoiar, sobretudo “as populações mais frágeis e ameaçadas pelo desenvolvimento predatório” no esforço por melhor “distribuição da terra, das águas e dos espaços urbanos”.
c) “Procurar um modelo de desenvolvimento alternativo...baseado numa ética” fundamentada no Evangelho.
d) Empenhar-se por “políticas públicas” de “proteção, conservação e restauração da natureza...”.
e) Buscar “medidas de monitoramento e controle social sobre a aplicação dos padrões ambientais...” (DA nº 463).
Nesse documento da V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe, temos, portanto, preciosos elementos que revelam quanto a Igreja Católica está preocupada com o meio ambiente, criado para o hábitat, a morada dos homens. É, portanto, em função do homem e de seu destino eterno que ela manifesta tanta preocupação, pois se trata do habitat por Deus mesmo criado para nós.
Conclusão
Felicito os promotores destas “Reflexões” sobre “Religiões e Meio Ambiente”, pois, as religiões, sobretudo as que se fundam na Bíblia, têm um grande apelo voltado ao amor por nossa casa comum onde vivemos. É a casa que Deus nosso Pai preparou com muito carinho para nós. Devemos para isso unir esforços.
Não há dúvida, houve um grande progresso na consciência ecológica de todos. Recordo que eu mesmo, na minha infância, não conseguia entender as restrições das primeiras leis de proteção aos animais e às plantas. Perguntava-me por que tais restrições se tudo me parecia tão abundante.
Falei do carinho com que Deus preparou nossa habitação. A sensibilidade pela natureza está muito relacionada com a experiência de um grande amor.
Penso que o amor é capaz de enriquecer nosso sentir pela natureza, como aconteceu com São Francisco de Assis e muitíssimos outros.
Uma coisa aliás controversa, um grande amor nos faz sentir-nos em comunhão com a natureza. Pode ser razoavelmente plausível o que muitos acreditam que podemos ter experiências chamadas de holísticas, oceânicas, de trans-consciência, uma espécie da identificação com o Cosmos. Basta citar os escritos de Fridjof Capra.
Acontece em algumas religiões, como na católica, uma espécie de identificação no amor com toda a criação. Poderia citar muitos exemplos. Permito-me narrar apenas um: Vive ainda uma mulher russa, Tatiana Guritcheva, professora de filosofia marxista, insatisfeita com sua filosofia e muito inquieta, por encontrar um sentido para a vida. Buscou todo tipo de experiências na linha do sexo e das drogas. Nessa busca terminou aderindo à ioga. Decorou vários mantras, entre eles até o Pai Nosso. No livro por ela escrito intitulado, Falar de Deus é perigoso, ela nos narra:
“Eis que um dia (tinha vinte e seis anos, então), eu caminhava por um campo, dizendo as palavras do Pai Nosso. Depois de tê-lo repetido umas seis vezes, sem ter a menor fé na existência de um ‘Pai celeste’, recebi subitamente a resposta. A coisa mais inesperada, mais inimaginável me aconteceu. Tornou-se claro para mim que Ele existia. Não o deus anônimo dos iogues, mas o Pai dos Céus, cheio de amor. Ele me amava e amava todas as coisas que me estavam ao redor. Tudo ficou tão claro para mim, como se estivéssemos no primeiro dia da Criação. A pobre paisagem em torno se iluminou de uma alegria incomum, cada planta, cada folha parecia fremir de júbilo. Dir-se-ia que o mundo inteiro acabava de sair de suas mãos extravasantes de amor. Naquele momento, eu nasci de novo”.
Depois dessa virada em sua vida ela foi expulsa da Rússia e, após viajar pelo mundo dando palestras, fundou um escritório na Alemanha, a fim de angariar fundos para as crianças abandonadas, sobretudo da África.
[1] Diálogus, 8; cf Cola, Silvano, Operários da Primeira Hora, Cidade Nova Editora, tradução Pepe, Enrico, 2ª ed. 1987, 14.
[2] Citado no Documento de Aparecida, nº 87.
[3] Ib nº 85.
[4] (Cat. 344; cf São Francisco de Assis, escritos e biografias, Vozes 1996, p.70s).
[5] Cf Inácio Larrañaga, O Irmão de Assis, Paulinas, 1980, p 102s.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Visão cristã do Social
Pastilha 86
A visão cristã do social
Na “pastilha” anterior escrevi sobre a noção de “realidade” no Documento de Aparecida. Volto ao mesmo assunto por achá-lo de muita importância.
Explicito aqui a me referir à “realidade” social, como se passou a entender abusivamente essa palavra. Por isso a coloquei entre aspas.
Há pouco tempo escrevi também sobre a visão cristã da história. Assim como a história também o social se enquadra na mesma categoria, a categoria do mistério de Cristo. Ele veio para “reunir em Cristo todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1,10). Aqui, o social, como a história, ganha novo sentido, novo significado.
Não se trata por isso de qualquer balela. Sob o prisma da encarnação do Verbo, história e social, vistos na perspectiva humano-sociológica, se esfumam diante do sentido novo, transcendente, infinito de “todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra”. Arriscamo-nos e ficar girando como mariposas em torno de uma débil luz de vela num quarto escuro, e não percebermos o brilho do sol.
O Documento de Aparecida, desde sua introdução, nos aponta para essa grande luz que transcende o sociológico. Encontramos aí, com muita clareza: ... o que nos define não são as circunstâncias dramáticas da vida, nem os desafios da sociedade e as tarefas que devemos empreender, mas acima de tudo o amor recebido do Pai, graças a Jesus Cristo, pela unção do Espírito Santo. Acrescenta o documento que essa definição é para a Conferência dos Bispos de uma “prioridade fundamental” (nº 14). Antes disso, com efeito, vêm citadas as palavras de Bento XVI, fazendo eco a João Paulo II: não tenham medo de Cristo! Ele não tira nada e dá tudo Quem se dá a ele, recebe cem por um. Sim, abram, abram de par em par as portas a Cristo e encontrarão a verdadeira vida” (nº’5).
Onde está a dificuldade? Está na cultura moderna, formada por filosofias, assumidas por tendências teológicas, traduzidas e vulgarizadas pela mídia. E o que há de mais sério nessas ciências? Elas pretendem explicar tudo por aquilo que na filosofia clássica se tem chamado de “potência”, em oposição ao “ato”. Chama-se de potência o componente de qualquer realidade que é feito ser por outro componente ativo, dinâmico.
Toda realidade múltipla é composta desses dois componentes. Ambos formam a realidade. Nenhum deles é realidade a não ser quando unido ao outro. Um exige o outro. A relação mútua é constitutivo essencial de ambos. Temos exemplos abundantes. Uma planta é composta da potencialidade da madeira e do poder de atualização do componente vegetal. Assim nós também somos um corpo orgânico potencial feito atual pela racionalidade.
Que tem a ver com o nosso caso essa consideração? Acontece que, hoje, a mentalidade, a cultura, privilegia os componentes potenciais. Assim, na teologia se privilegia o humano. Em Jesus Cristo se acentua de tal sorte o humano que o divino passa facilmente à categoria de secundário, ou, como se reconheceu, passa à categoria de “suposto”. Acentua-se o histórico e o social ao nível do humano e sociológico, em detrimento da visão cristã dessas dimensões. Tomam-se esses conceitos despidos do sentido divino que, depois de Cristo, passaram a possuir.
O fato de privilegiar a potência redunda para muitos teólogos e agentes de pastoral, em querer fundamentar tudo partindo “de baixo para cima”. Entretanto, assim como a criação, também a revelação, não aconteceram dessa forma. Elas foram inesperada surpresa, pura gratuidade, fruto de uma escolha amorosa de Deus.
É verdade que, tomada essa amorosa iniciativa, Deus pôs à prova os destinatários, como convém a seres livres. Os primeiros pais foram provados por um livre ato de aceitação e correspondência. Sabemos do resultado descrito no livro do Gênesis. A redenção por Jesus Cristo também foi posta à prova de aceitação e correspondência na pessoa de Maria. Daí que os Santos Padres nos ensinaram que, assim como por um homem e uma mulher nos veio a perdição, do mesmo modo, por um homem, Jesus Cristo e por uma mulher, Maria, nos veio a salvação.
Desde então os cristãos estiveram a braços com a enorme questão: como entender melhor a ação livre de Deus sobre nós e a livre correspondência de nossa parte? Ou, como se relacionam graça e natureza, sobrenatural e natural?
A história parece mostrar que acontece um movimento pendular entre o sobrenaturalismo e o naturalismo. O natural e o sobrenatural são dois escolhos, Cila e Caribde, que formam uma estreita passagem pela qual muitas teologias não passam incólumes. Isso acontece em épocas como a nossa em que se rejeitou a metafísica, única ciência que poderia nos fornecer o paradigma da passagem por entre esses dois escolhos.
Os filósofos sociais discutiram muito sobre o sentido do social e não chegaram a um consenso. Os teólogos, chamados a se moverem ao nível do sobrenatural, onde o natural, o imanente, nada perde e ao contrário é transfigurado, não podem ficar enredados no trânsito da imanência. São solicitados a levantar os olhos às alturas em que Cristo, assumindo a natureza a elevou. Por isso, nos exortam os últimos Papas: não tenham medo de Cristo! Ele não tira nada e dá tudo. Em verdade, assim como assume nossa humanidade, com ela assume também a história humana e o social. Foi para exemplificar que chamei atenção para o caso do império romano. Não consta que os cristãos dos primeiros séculos desenvolveram uma vasta ação social para fazer ruir o império. Ele foi penetrado por infiltração do fermento que é o Reino de Deus (Mt 13,33). Jesus não disse que o Reino é a massa, mas disse que o Reino é o fermento. O fermento transforma a massa compenetrando-a e fazendo-a levedar.
A visão cristã do social
Na “pastilha” anterior escrevi sobre a noção de “realidade” no Documento de Aparecida. Volto ao mesmo assunto por achá-lo de muita importância.
Explicito aqui a me referir à “realidade” social, como se passou a entender abusivamente essa palavra. Por isso a coloquei entre aspas.
Há pouco tempo escrevi também sobre a visão cristã da história. Assim como a história também o social se enquadra na mesma categoria, a categoria do mistério de Cristo. Ele veio para “reunir em Cristo todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1,10). Aqui, o social, como a história, ganha novo sentido, novo significado.
Não se trata por isso de qualquer balela. Sob o prisma da encarnação do Verbo, história e social, vistos na perspectiva humano-sociológica, se esfumam diante do sentido novo, transcendente, infinito de “todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra”. Arriscamo-nos e ficar girando como mariposas em torno de uma débil luz de vela num quarto escuro, e não percebermos o brilho do sol.
O Documento de Aparecida, desde sua introdução, nos aponta para essa grande luz que transcende o sociológico. Encontramos aí, com muita clareza: ... o que nos define não são as circunstâncias dramáticas da vida, nem os desafios da sociedade e as tarefas que devemos empreender, mas acima de tudo o amor recebido do Pai, graças a Jesus Cristo, pela unção do Espírito Santo. Acrescenta o documento que essa definição é para a Conferência dos Bispos de uma “prioridade fundamental” (nº 14). Antes disso, com efeito, vêm citadas as palavras de Bento XVI, fazendo eco a João Paulo II: não tenham medo de Cristo! Ele não tira nada e dá tudo Quem se dá a ele, recebe cem por um. Sim, abram, abram de par em par as portas a Cristo e encontrarão a verdadeira vida” (nº’5).
Onde está a dificuldade? Está na cultura moderna, formada por filosofias, assumidas por tendências teológicas, traduzidas e vulgarizadas pela mídia. E o que há de mais sério nessas ciências? Elas pretendem explicar tudo por aquilo que na filosofia clássica se tem chamado de “potência”, em oposição ao “ato”. Chama-se de potência o componente de qualquer realidade que é feito ser por outro componente ativo, dinâmico.
Toda realidade múltipla é composta desses dois componentes. Ambos formam a realidade. Nenhum deles é realidade a não ser quando unido ao outro. Um exige o outro. A relação mútua é constitutivo essencial de ambos. Temos exemplos abundantes. Uma planta é composta da potencialidade da madeira e do poder de atualização do componente vegetal. Assim nós também somos um corpo orgânico potencial feito atual pela racionalidade.
Que tem a ver com o nosso caso essa consideração? Acontece que, hoje, a mentalidade, a cultura, privilegia os componentes potenciais. Assim, na teologia se privilegia o humano. Em Jesus Cristo se acentua de tal sorte o humano que o divino passa facilmente à categoria de secundário, ou, como se reconheceu, passa à categoria de “suposto”. Acentua-se o histórico e o social ao nível do humano e sociológico, em detrimento da visão cristã dessas dimensões. Tomam-se esses conceitos despidos do sentido divino que, depois de Cristo, passaram a possuir.
O fato de privilegiar a potência redunda para muitos teólogos e agentes de pastoral, em querer fundamentar tudo partindo “de baixo para cima”. Entretanto, assim como a criação, também a revelação, não aconteceram dessa forma. Elas foram inesperada surpresa, pura gratuidade, fruto de uma escolha amorosa de Deus.
É verdade que, tomada essa amorosa iniciativa, Deus pôs à prova os destinatários, como convém a seres livres. Os primeiros pais foram provados por um livre ato de aceitação e correspondência. Sabemos do resultado descrito no livro do Gênesis. A redenção por Jesus Cristo também foi posta à prova de aceitação e correspondência na pessoa de Maria. Daí que os Santos Padres nos ensinaram que, assim como por um homem e uma mulher nos veio a perdição, do mesmo modo, por um homem, Jesus Cristo e por uma mulher, Maria, nos veio a salvação.
Desde então os cristãos estiveram a braços com a enorme questão: como entender melhor a ação livre de Deus sobre nós e a livre correspondência de nossa parte? Ou, como se relacionam graça e natureza, sobrenatural e natural?
A história parece mostrar que acontece um movimento pendular entre o sobrenaturalismo e o naturalismo. O natural e o sobrenatural são dois escolhos, Cila e Caribde, que formam uma estreita passagem pela qual muitas teologias não passam incólumes. Isso acontece em épocas como a nossa em que se rejeitou a metafísica, única ciência que poderia nos fornecer o paradigma da passagem por entre esses dois escolhos.
Os filósofos sociais discutiram muito sobre o sentido do social e não chegaram a um consenso. Os teólogos, chamados a se moverem ao nível do sobrenatural, onde o natural, o imanente, nada perde e ao contrário é transfigurado, não podem ficar enredados no trânsito da imanência. São solicitados a levantar os olhos às alturas em que Cristo, assumindo a natureza a elevou. Por isso, nos exortam os últimos Papas: não tenham medo de Cristo! Ele não tira nada e dá tudo. Em verdade, assim como assume nossa humanidade, com ela assume também a história humana e o social. Foi para exemplificar que chamei atenção para o caso do império romano. Não consta que os cristãos dos primeiros séculos desenvolveram uma vasta ação social para fazer ruir o império. Ele foi penetrado por infiltração do fermento que é o Reino de Deus (Mt 13,33). Jesus não disse que o Reino é a massa, mas disse que o Reino é o fermento. O fermento transforma a massa compenetrando-a e fazendo-a levedar.
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