O Papa e o sentido do sexo
Achylle Alexio Rubin /achyllerubin@yahoo.com.br
Acaba de ser publicado um livro sob o título “Teologia do corpo...uma introdução básica à revolução sexual de João Paulo II”. Publicado pela Editora Miryan de Porto Alegre, fone (51) 33410769, e-mail: editoramiryan@terra.com.br/
João Paulo II, ainda como padre, dedicou-se com empenho à pastoral da juventude. Diante do amadurecimento da vida sexual dos jovens, ele se aplicou em apresentar o sentido do sexo no contexto global da existência humana. Para tanto desenvolveu uma verdadeira teologia em torno do assunto. Convencido da importância do tema, voltou a ele com freqüência nos seus primeiros anos de Papa. Entre a eleição, setembro de 1979 e novembro de 1984, pronunciou 129 homilias, todas sobre o tema da teologia do corpo.
O ponto de partida desse ensinamento teológico vem a ser o fato de nós precisarmos das coisas materiais para dar-nos conta das espirituais. As realidades corporais nos dão de percebermos as espirituais. Chamam-se por isso de sinal, ou símbolo. Por exemplo, a água no caso do batismo representa sinal de realidade muito maior.
O maior porém de todos os símbolos foi certamente a natureza humana de Cristo. Ela nos proporcionou vermos Deus em sua humanidade. No prólogo ao Evangelho de João se diz que “ninguém jamais viu a Deus” e, não obstante, no capítulo 14 do mesmo Evangelho, Jesus afirma que “aquele que me viu, viu também o Pai”. Ver Cristo homem, nos proporciona vermos Deus, no sinal daquele homem. O Centurião romano que acompanhou a paixão de Cristo, ao presenciar o modo como esse homem se comportou, ao correr dessas horríveis cenas, exclamou: “Este homem era realmente o Filho de Deus!”.
O ponto de partida das homilias do Papa sobre o corpo humano parece ser, entretanto, o símbolo da união entre homem e mulher para representar realidades maiores e mais sublimes do que as meramente corporais.
A união entre homem e mulher tem uma dupla revelação: o amor em seu mais alto grau e a dimensão divina da procriação. De tal sorte que se torna uma experiência de espiritual grandeza. Assim que o problema, antes de ser o do sexo, é o do amor, de sua nobreza e de sua relação com Deus.
Recebi por escrito de ua mãe um testemunho já por mim escutado de viva voz de outras mães, e que eu desejaria ser confirmado por outras ainda. Transcrevo-o: “... engravidar foi o momento mais humano-divino que pude sentir em minha vida. Continuaria dizendo e me perguntando: que plenitude de Espírito Santo acontece numa mulher grávida?! O que é que enche de luz o coração dos pais nos nove meses de gravidez e, especialmente, no nascimento de um filho?! Meu marido, por exemplo, pegava a (última filha) recém-nascida e rodava com ela nos braços, dançava e me dizia: Quero outra igual a esta, quero mais, muito mais filhos, porque é bom demais! Durante essa terceira gravidez, todo mundo me perguntava se era a primeira, tanta era minha alegria e satisfação que eu transmitia. E dizer que eu já andava pelos 34 anos. Eu corria, eu sorria, eu cantava o tempo todo. E quando estive grávida do primeiro, aos domingos eu jogava canastra até altas horas e, segunda cedo, pegava no trabalho e não sentia canseira. E a gravidez do segundo? Estava então no segundo ano de faculdade e fazia estágio direto das 07 às 13 horas. À tarde freqüentava aulas. À noite saía para reuniões... Conclusão: sempre dizia que durante minhas gravidezes eu tinha um Deus poderoso dentro de mim, tanta era a disposição que sentia...”.
Acredito que esse testemunho ilustra bastante o novo livro que estou apresentando, “A Teologia do Corpo”... Oxalá muitos se decidam a lê-lo.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
sábado, 26 de julho de 2008
Sobre a liberdade
Sobre a liberdade
Há pouco tempo, Bento XVI, em discurso sobre São Máximo, o Confessor, abordou o tema da liberdade, encontrado nos escritos desse santo. Houve alguém que, dando-se conta da importância desse tema, achou por bem divulgá-lo entre amigos. Estes, por sua vez, se questionaram amplamente, a respeito, sinal de que se trata de um assunto de grande interesse.
O referido discurso do Papa tratou do tema da liberdade nos escritos de São Máximo. Para se compreender a liberdade importa “compreender o dinamismo do ser humano que só se realiza saindo de si mesmo”. O homem não pode fechar-se sobre si mesmo, sob pena de não se realizar. Em nós mesmos não poderemos encontrar-nos. Onde então nos encontraremos? “Só em Deus nos encontramos a nós mesmos, nossa totalidade e plenitude”. Em conseqüência, “o homem que se fecha em si mesmo não está completo”.
O pecado consiste na negação. O homem foi induzido a dizer “não” a Deus, iludindo-se de que com isso seria livre, “chegaria à culminância da liberdade”. Não se deu conta que “o máximo da liberdade é o ‘sim’, a conformidade com a vontade de Deus”. No Evangelho encontramos a afirmação contundente dessa realidade, ao nos ensinar: “aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por minha causa, reencontrá-la-á” (Mt 10,39).
Que significa, do ponto de vista filosófico, que nossa liberdade está condicionada ao “sim” e não ao “não”? Significa que nós somos seres essencialmente finalizados. Nós não temos em nós mesmos a plenitude. Somos seres carentes e, por isso, dependentes de quem é plenitude, de quem pode dar, de quem pode enriquecer-nos. Somos essencialmente voltados para um fim. Voltarmo-nos para o “não” é o mesmo que nos voltarmos para o vazio, para onde não há nada que possa plenificar-nos.
Voltarmo-nos para o “não”, representará duplo sintoma: ou ilusão, ou loucura. O mais freqüente é a ilusão de saciar-nos com produtos imaginários, sonho da imaginação. Uso um exemplo para ilustrar a loucura de encontrar a liberdade com o “não”. Se estou numa sala, no décimo andar de um edifício, posso decidir, porque sou livre, de sair pela janela. Verdadeira loucura.
Portanto, nós temos uma liberdade condicionada. Somos dependentes em tudo, da família, da sociedade, das realidades materiais. Nossa vontade não está em condições de dispensar esses condicionamentos. O mais profundo e abrangente entre eles é que somos seres condicionados pelo fim, a fonte de toda nossa realização, o Sumo Bem, diria o filósofo pagão, Aristóteles. Em sua “Ética a Nicômaco”, afirmou que todo homem busca a sua felicidade, sua realização. Os ignorantes, a buscam nos “prazeres, nas riquezas e nas honras”. Os sábios, porém, a buscam no Sumo Bem.
Finalmente, a liberdade está ligada de forma imediata à decisão de nossa vontade. Mas, de forma mediata, está ligada à nossa razão, que representa o farol a iluminar a estrada de nosso fim, solicitando a vontade de andar por ela. A razão, no exemplo acima, solicita nossa vontade a sairmos pela porta da sala e tomar as escadas, ou o elevador. Se a razão não iluminar esse cominho, significa loucura. Assim, creio eu, podemos entender que a liberdade consiste em sairmos de nós na direção do bem, do Sumo Bem, significa vivermos do “sim”. Foi o que Bento XVI desencarnou das obras profundas de São Máximo, do século VI; santo que sofreu verdadeiro martírio. O imperador de Constantinopla, primeiro, mandou cortar-lhe a língua, a fim de impedi-lo de falar, depois, mandou decepar-lhe a mão direita, a fim de impedi-lo de escrever e, em seguida, o exilou. Por tal martírio foi chamado de São Máximo, o Confessor.
Há pouco tempo, Bento XVI, em discurso sobre São Máximo, o Confessor, abordou o tema da liberdade, encontrado nos escritos desse santo. Houve alguém que, dando-se conta da importância desse tema, achou por bem divulgá-lo entre amigos. Estes, por sua vez, se questionaram amplamente, a respeito, sinal de que se trata de um assunto de grande interesse.
O referido discurso do Papa tratou do tema da liberdade nos escritos de São Máximo. Para se compreender a liberdade importa “compreender o dinamismo do ser humano que só se realiza saindo de si mesmo”. O homem não pode fechar-se sobre si mesmo, sob pena de não se realizar. Em nós mesmos não poderemos encontrar-nos. Onde então nos encontraremos? “Só em Deus nos encontramos a nós mesmos, nossa totalidade e plenitude”. Em conseqüência, “o homem que se fecha em si mesmo não está completo”.
O pecado consiste na negação. O homem foi induzido a dizer “não” a Deus, iludindo-se de que com isso seria livre, “chegaria à culminância da liberdade”. Não se deu conta que “o máximo da liberdade é o ‘sim’, a conformidade com a vontade de Deus”. No Evangelho encontramos a afirmação contundente dessa realidade, ao nos ensinar: “aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por minha causa, reencontrá-la-á” (Mt 10,39).
Que significa, do ponto de vista filosófico, que nossa liberdade está condicionada ao “sim” e não ao “não”? Significa que nós somos seres essencialmente finalizados. Nós não temos em nós mesmos a plenitude. Somos seres carentes e, por isso, dependentes de quem é plenitude, de quem pode dar, de quem pode enriquecer-nos. Somos essencialmente voltados para um fim. Voltarmo-nos para o “não” é o mesmo que nos voltarmos para o vazio, para onde não há nada que possa plenificar-nos.
Voltarmo-nos para o “não”, representará duplo sintoma: ou ilusão, ou loucura. O mais freqüente é a ilusão de saciar-nos com produtos imaginários, sonho da imaginação. Uso um exemplo para ilustrar a loucura de encontrar a liberdade com o “não”. Se estou numa sala, no décimo andar de um edifício, posso decidir, porque sou livre, de sair pela janela. Verdadeira loucura.
Portanto, nós temos uma liberdade condicionada. Somos dependentes em tudo, da família, da sociedade, das realidades materiais. Nossa vontade não está em condições de dispensar esses condicionamentos. O mais profundo e abrangente entre eles é que somos seres condicionados pelo fim, a fonte de toda nossa realização, o Sumo Bem, diria o filósofo pagão, Aristóteles. Em sua “Ética a Nicômaco”, afirmou que todo homem busca a sua felicidade, sua realização. Os ignorantes, a buscam nos “prazeres, nas riquezas e nas honras”. Os sábios, porém, a buscam no Sumo Bem.
Finalmente, a liberdade está ligada de forma imediata à decisão de nossa vontade. Mas, de forma mediata, está ligada à nossa razão, que representa o farol a iluminar a estrada de nosso fim, solicitando a vontade de andar por ela. A razão, no exemplo acima, solicita nossa vontade a sairmos pela porta da sala e tomar as escadas, ou o elevador. Se a razão não iluminar esse cominho, significa loucura. Assim, creio eu, podemos entender que a liberdade consiste em sairmos de nós na direção do bem, do Sumo Bem, significa vivermos do “sim”. Foi o que Bento XVI desencarnou das obras profundas de São Máximo, do século VI; santo que sofreu verdadeiro martírio. O imperador de Constantinopla, primeiro, mandou cortar-lhe a língua, a fim de impedi-lo de falar, depois, mandou decepar-lhe a mão direita, a fim de impedi-lo de escrever e, em seguida, o exilou. Por tal martírio foi chamado de São Máximo, o Confessor.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
As interpretações de Aparecida
As interpretações de Aparecida
Um destacado teólogo escreveu-me, em março último: Sinto que a teologia moderna (de hoje) é por demais “moderna” (alinhada ao imanentismo da modernidade). Há dificuldade nos teólogos e também, em parte nos Bispos (parte) de entender e apreciar, em sua natureza própria, a dimensão transcendente – espiritual – sobrenatural da fé. O que se escreve de Aparecida?! Cada um vê aí o que quer...
Não me parece difícil de vislumbrar duas óticas interpretativas do documento de Aparecida. Uma é a dos que o vêem à luz de Medellín e a outra a dos que o vêem à luz dos passos que a Igreja da América Latina tem dado, a partir, sobretudo de Santo Domingo. Já escrevi sobre isso dois artigos sob os títulos: A Igreja em correção de rota e Troca a Igreja de enfoque? (cf meu “blog”: achyllerubin.blogspot.com).
Os hermeneutas do enfoque de Medellín se valem das palavras chaves contidas no Documento, ver-julgar-agir e opção pelos pobres. Crêem poder justificar sua interpretação com essas palavras. Se esses intérpretes, entretanto, lessem o documento com maior atenção, iriam perceber que, tanto para o método ver-julgar-agir, como para a opção pelos pobres, o mesmo documento dá outro sentido. Não se parte mais simplesmente do “ver”. Parte-se do contemplar a Deus para que vejamos a realidade que nos circundo à luz de sua providência (nº19). Por sua vez a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica, segundo as próprias palavras do Papa (nº 392). Conclusão: sem a clara percepção do mistério de Deus, torna-se opaco também o desígnio amoroso e paternal de uma vida digna para todos os seres humanos (nº35).
Em conseqüência, não se parte do “ver”, pois, os cristãos precisam recomeçar a partir de Cristo, a partir da contemplação e de quem nos revelou em seu mistério a plenitude do cumprimento da vocação humana e de seu sentido (nº 41). Fica evidente que, se a opção pelos pobres está implícita na fé cristológica, então essa opção nasce de nossa fé em Jesus Cristo (nº 392) e não das causas detectadas pelas análises das conjunturas sociais, políticas e econômicas.
Lido o documento de Aparecida sob essa luz, ele ganha outro sentido, diverso daquele que muitos tentam ainda defender. Antes da realização da grande conferência, tenho respondido a alguém que me perguntava quais seriam as perspectivas do documento final: é possível e até provável, respondi, que o documento resulte de um certo compromisso entre diversas correntes de pensamento. As várias interpretações parecem apontar nessa direção.
Estou, aliás, bem curioso por saber qual a razão por que o artigo de frei Clodovis Boff, na REB de outubro do ano passado, foi colocado em último lugar, depois de vários outros intérpretes. Não será porque ele, sem fazer nomes, faz uma valiosa autocrítica da Teologia da Libertação e contesta o modo dos demais interpretarem Aparecida?
Considero, entretanto, que o máximo problema no seio da Igreja, e que comanda todas as interpretações, consiste naquele apontado acima: a dificuldade de se entender a vida sobrenatural. Ela se tornou indigesta, depois de ter sido involucrada no slogan do sobrenaturalismo. No entanto, reside ali a fronteira entre uma visão de autêntica vida cristã e uma visão de mera cultura cristã.
Escrevi um artigo sobre a visão cristã da história, comentando a celebre Carta a Diogneto, do século II (cf meu blog). Pois bem, o sobrenatural, tanto se refere ao indivíduo, como se refere à história e à sociedade. É verdade que Cristo “assumiu” a natureza humana, mas não a assumiu para deixá-la no nível em que se encontra de fato. Assumiu-a para elevá-la a um sumo, a uma culminância. O mesmo ele fez com a história, com a sociedade. Assumir, com efeito, significa elevar a um sumo, a um nível mais alto.
A filosofia da história há muito tempo está buscando um sentido para a história, uma compreensão dos acontecimentos que se sucedem. Sobre isso, porém, os filósofos divergem grandemente.
A teologia da história, entretanto, tem outra visão dos fatos e não há como titubear na busca de sua compreensão. Aqui os fatos históricos ganham um sentido novo e bem determinado. Não são produto de projetos humanos, orientação humana. São projetados e dirigidos pela divina Providência. A nós compete exercitar-nos, tanto na sensibilidade para perceber a intenção da Providência, quanto na docilidade para segui-la. Esse é o agir consoante o sentido teológico e sobrenatural da história.
Uma sociedade justa, entendida como objetivo da evangelização, distrai do verdadeiro sentido. Ela é alcançada como conseqüência de uma visão cristã da história e não como objetivo primeiro: buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo (Mt 6, 33).
A interpretação de um escrito como o documento de Aparecida deve, portanto, obedecer a uma visão teológica, sobrenatural, do contrário desvia-se de seu verdadeiro sentido e se criam confusões.
Pe. Achylle A. Rubin / achyllerubin@yahoo.com.br
Um destacado teólogo escreveu-me, em março último: Sinto que a teologia moderna (de hoje) é por demais “moderna” (alinhada ao imanentismo da modernidade). Há dificuldade nos teólogos e também, em parte nos Bispos (parte) de entender e apreciar, em sua natureza própria, a dimensão transcendente – espiritual – sobrenatural da fé. O que se escreve de Aparecida?! Cada um vê aí o que quer...
Não me parece difícil de vislumbrar duas óticas interpretativas do documento de Aparecida. Uma é a dos que o vêem à luz de Medellín e a outra a dos que o vêem à luz dos passos que a Igreja da América Latina tem dado, a partir, sobretudo de Santo Domingo. Já escrevi sobre isso dois artigos sob os títulos: A Igreja em correção de rota e Troca a Igreja de enfoque? (cf meu “blog”: achyllerubin.blogspot.com).
Os hermeneutas do enfoque de Medellín se valem das palavras chaves contidas no Documento, ver-julgar-agir e opção pelos pobres. Crêem poder justificar sua interpretação com essas palavras. Se esses intérpretes, entretanto, lessem o documento com maior atenção, iriam perceber que, tanto para o método ver-julgar-agir, como para a opção pelos pobres, o mesmo documento dá outro sentido. Não se parte mais simplesmente do “ver”. Parte-se do contemplar a Deus para que vejamos a realidade que nos circundo à luz de sua providência (nº19). Por sua vez a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica, segundo as próprias palavras do Papa (nº 392). Conclusão: sem a clara percepção do mistério de Deus, torna-se opaco também o desígnio amoroso e paternal de uma vida digna para todos os seres humanos (nº35).
Em conseqüência, não se parte do “ver”, pois, os cristãos precisam recomeçar a partir de Cristo, a partir da contemplação e de quem nos revelou em seu mistério a plenitude do cumprimento da vocação humana e de seu sentido (nº 41). Fica evidente que, se a opção pelos pobres está implícita na fé cristológica, então essa opção nasce de nossa fé em Jesus Cristo (nº 392) e não das causas detectadas pelas análises das conjunturas sociais, políticas e econômicas.
Lido o documento de Aparecida sob essa luz, ele ganha outro sentido, diverso daquele que muitos tentam ainda defender. Antes da realização da grande conferência, tenho respondido a alguém que me perguntava quais seriam as perspectivas do documento final: é possível e até provável, respondi, que o documento resulte de um certo compromisso entre diversas correntes de pensamento. As várias interpretações parecem apontar nessa direção.
Estou, aliás, bem curioso por saber qual a razão por que o artigo de frei Clodovis Boff, na REB de outubro do ano passado, foi colocado em último lugar, depois de vários outros intérpretes. Não será porque ele, sem fazer nomes, faz uma valiosa autocrítica da Teologia da Libertação e contesta o modo dos demais interpretarem Aparecida?
Considero, entretanto, que o máximo problema no seio da Igreja, e que comanda todas as interpretações, consiste naquele apontado acima: a dificuldade de se entender a vida sobrenatural. Ela se tornou indigesta, depois de ter sido involucrada no slogan do sobrenaturalismo. No entanto, reside ali a fronteira entre uma visão de autêntica vida cristã e uma visão de mera cultura cristã.
Escrevi um artigo sobre a visão cristã da história, comentando a celebre Carta a Diogneto, do século II (cf meu blog). Pois bem, o sobrenatural, tanto se refere ao indivíduo, como se refere à história e à sociedade. É verdade que Cristo “assumiu” a natureza humana, mas não a assumiu para deixá-la no nível em que se encontra de fato. Assumiu-a para elevá-la a um sumo, a uma culminância. O mesmo ele fez com a história, com a sociedade. Assumir, com efeito, significa elevar a um sumo, a um nível mais alto.
A filosofia da história há muito tempo está buscando um sentido para a história, uma compreensão dos acontecimentos que se sucedem. Sobre isso, porém, os filósofos divergem grandemente.
A teologia da história, entretanto, tem outra visão dos fatos e não há como titubear na busca de sua compreensão. Aqui os fatos históricos ganham um sentido novo e bem determinado. Não são produto de projetos humanos, orientação humana. São projetados e dirigidos pela divina Providência. A nós compete exercitar-nos, tanto na sensibilidade para perceber a intenção da Providência, quanto na docilidade para segui-la. Esse é o agir consoante o sentido teológico e sobrenatural da história.
Uma sociedade justa, entendida como objetivo da evangelização, distrai do verdadeiro sentido. Ela é alcançada como conseqüência de uma visão cristã da história e não como objetivo primeiro: buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo (Mt 6, 33).
A interpretação de um escrito como o documento de Aparecida deve, portanto, obedecer a uma visão teológica, sobrenatural, do contrário desvia-se de seu verdadeiro sentido e se criam confusões.
Pe. Achylle A. Rubin / achyllerubin@yahoo.com.br
Marcadores:
Algo mais que Medellin na visão cristá
quinta-feira, 22 de maio de 2008
Corpus Christi
Hoje é Corpus Christi
Jesus veio da parti do Pai para provar de forma eminente, infinita o quanto nos ama. Como quem ama dá o que tem de melhor à pessoa amada, ele nos deu o que tinha de melhor. Por isso, não deu coisas, deu-se a si mesmo. O amor começa por dar coisas, mas termina dando-se a si mesmo. Deus nos deu tudo, toda a criação: "Deus disse: eis que eu vos dou toda a erva... todos os animais... todas as aves dos céus... os repties e tudo em que haja sopro de vida" (Gn 1,29s).
Não contente em nos dar tudo, deu-nos a si mesmo, a sua natureza, fazendo-nos filhos seus: "... necessário vos é nascer de novo..." (Jo 3,3s). Não contente com isso, deu-se a nós em forma de alimento e bebida, instituiu a eucaristia. Primeiro prometeu, com bastante antecedência. Tendo multiplicado cinco pães e três peixinhos para alimentar cinco mil homens, além da mulheres e crianças, no dia seguinte a multidão o procurou. Ele os admoestou: "... buscais-me, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos... o verdadeiro pão é o que desce do céu e dá vida ao mundo... Eu sou o pão da vida" (Jo 6,26s).
Poucos horas antes de ser entregue nas mãos da maldade humana, entregando-se a si mesmo para revelar o amor, pois, "ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos" )Jo 15,13), Ele, de forma inesperada e simples, deu-se em alimento e bebida. Na última ceia, "tomou o pão, deu graças, o partiu e o deu, dizendo: "Isto é meu corpo', comei dele todos, e logo tomou o calice com vinho e disse: 'este é o cálice de meu sangue, bebei dele todos'.
Portanto, aquele que ama não se contenta em dar coisas, dá de si mesmo. Daí que o amor esponsal foi chamado por João Paulo II de ícone do amor de Deus. Daí que em todo o Antigo Testamento Deus comparou seu amor como o amor do esposo para com sua esposa. Amem
Jesus veio da parti do Pai para provar de forma eminente, infinita o quanto nos ama. Como quem ama dá o que tem de melhor à pessoa amada, ele nos deu o que tinha de melhor. Por isso, não deu coisas, deu-se a si mesmo. O amor começa por dar coisas, mas termina dando-se a si mesmo. Deus nos deu tudo, toda a criação: "Deus disse: eis que eu vos dou toda a erva... todos os animais... todas as aves dos céus... os repties e tudo em que haja sopro de vida" (Gn 1,29s).
Não contente em nos dar tudo, deu-nos a si mesmo, a sua natureza, fazendo-nos filhos seus: "... necessário vos é nascer de novo..." (Jo 3,3s). Não contente com isso, deu-se a nós em forma de alimento e bebida, instituiu a eucaristia. Primeiro prometeu, com bastante antecedência. Tendo multiplicado cinco pães e três peixinhos para alimentar cinco mil homens, além da mulheres e crianças, no dia seguinte a multidão o procurou. Ele os admoestou: "... buscais-me, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos... o verdadeiro pão é o que desce do céu e dá vida ao mundo... Eu sou o pão da vida" (Jo 6,26s).
Poucos horas antes de ser entregue nas mãos da maldade humana, entregando-se a si mesmo para revelar o amor, pois, "ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos" )Jo 15,13), Ele, de forma inesperada e simples, deu-se em alimento e bebida. Na última ceia, "tomou o pão, deu graças, o partiu e o deu, dizendo: "Isto é meu corpo', comei dele todos, e logo tomou o calice com vinho e disse: 'este é o cálice de meu sangue, bebei dele todos'.
Portanto, aquele que ama não se contenta em dar coisas, dá de si mesmo. Daí que o amor esponsal foi chamado por João Paulo II de ícone do amor de Deus. Daí que em todo o Antigo Testamento Deus comparou seu amor como o amor do esposo para com sua esposa. Amem
Amor, esquecimento de si
Amor, esquecimento de si
Estou escrevendo sobre o sacramento do matrimônio. Chamei-o de sacramento do amor. Entendi então que devia escrever, antes de mais nada, sobre o amor. Iniciei mostrando o amor como uma realidade paradoxal porque busca união máxima e, ao mesmo tempo, máxima distinção; união de natureza e distinção de pessoas. Na Trindade acontece de forma perfeita tal paradoxo insondável: Uma só natureza, um só Deus, em três pessoas. Comentei também que o amor esponsal é exclusivo e indissolúvel, não só por haver uma lei que postula isso, mas por ser exigência da própria natureza do amor esponsal.
Além dessas características importa salientar outra mais: O amor leva a pessoa ao esquecimento de si. O egoísmo centraliza a pessoa sobre si mesma. O amor faz com que a pessoa esqueça de si, se volte toda para o outro. Na pessoa amada ela se perde, literalmente. Passa do egoísmo, da centralidade do próprio eu, para a centralidade do outro. Talvez seja essa a razão porque o povo diz que o amor é cego. Trata-se certamente de uma avaliação egoísta, pois o amor é cego para seus próprios interesses, por estar voltado todo para o outro. As mães sabem disso. Uma delas, falando a linguagem do egoísmo, me disse: “O coração de mãe é o diacho!”.
Jesus expressa no Evangelho essa radicalidade do amor, quando afirma: ... quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á: mas, quem sacrificar a sua vida por amor de mim, salvá-la-á” (Lc 9,24). Essa é outra expressão do paradoxo do amor. Como se entende que se perder significa salvar-se? Nossa cultura egoísta, feita de imediatismos práticos não consegue entender, por não entende mais o amor.
Duas indicações nos auxiliam na compreensão desse paradóxo. De um lado, a experiência nos mostra que só o amor nos faz felizes, isto é, nos salva. Um outro texto do Evangelho nos aponta onde está a felicidade ao nos dizer: ... quando deres uma ceia, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. Serás feliz porque eles não têm com que te retribuir; mas ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos (Lc14,13-14). Serás feliz porque é com tais convidados que o amor acontece. E o amor nos faz felizes. De outro lado, Jesus que se identificou com esses “pequenos” (Cf Mt, 25,40), no dia do julgamento saberá retribuir (Mt 10,42).
Estou escrevendo que o amor nos leva ao esquecimento de nós mesmos, ele nos leva a perder-nos na pessoa amada. No amor somos levados a nos despojar, a nos esvaziar de nós mesmos em favor do outro. Novamente, perdendo-nos nos ganhamos. Quem poderá entender tal procedimento? Somente quem o experimentar. Nossa cultura nos afasta da experiência do amor.
Jesus que havia dito ninguém tem mais amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos (Jo 15,13), efetivamente, esvaziou-se de todas as suas prerrogativas, de todos os seus títulos. Não apelou para nenhum deles, nem sequer o de ser Deus. Entendeu-o muito bem São Paulo: Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas esvaziou-se de si mesmo, assumindo a condição de escrevo e assemelhando-se aos homens... (Fl 2,6).
No esvaziamento de si, quem ama também dá à pessoa amada aquilo que tem de melhor. Jesus não deu coisas mas deu de si mesmo: Ao dar a vida, revelou-nos o amor. Além disso fez-nos participantes de sua própria natureza (2Pd 1,4) e, deu-nos a si mesmo em alimento e bebida. Portanto, deu de si, do que tinha de melhor. São Vicente Pallotti sentiu isso quando escreveu: Deus me ama tanto que, se pudesse me fazer verdadeiro Deus, me faria verdadeiro Deus.
Em tal clima de amor, se a pessoa amada tiver que retribuir não o fará nunca por temor, mas será igualmente e sempre também por amor, por pura gratuidade. Jesus amou gratuitamente e quis acordar um nós a mesma atitude. Não exigiu nada em troca, não cobrou nada de ninguém, não ameaçou, não julgou ninguém, não condenou, numa palavra, não atemorizou. Só teve palavras de perdão. Se, com efeito, o amor não fosse gratuito criaria devedores e os devedores temem, como diz o provérbio popular: quem não deve não teme, mas quem deve teme.
Em conseqüência de tudo, o amor tem o caráter de certa ingenuidade. O que ama não vê malícia na pessoa amada. Deixa-se facilmente ludibriar. Não busca defender-se da maldade, não se defende porque se entrega.
Há quarenta anos atrás um grande pregador suíço, Pe. Maurice Zundel, fez uma conferência, publicada há poucos anos numa revista francesa com o título: Sauver Dieu de nous mêmes (salvar Deus de nós mesmos). Na verdade, Jesus Cristo nosso Deus, entregou-se nas mãos da maldade humana: o Filho do homem vai ser entregue às mãos dos pecadores (Mc 14,41). Entregou-se por amor aos homens, mas os homens não o salvaram: Os pecadores que ele ama com predileção – Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores (Mt 9,13) – em lugar de salvá-lo, o condenaram à morte.
Entregou-se por vontade do Pai que o enviou a nós. E a vontade do Pai não foi uma vontade sádica. Foi a intenção do Pai, o amor do Pai por nós, a fidelidade à sua própria palavra que havia prometido salvação. E a salvação se faz pelo caminho do amor. Isso tudo aconteceu para que, se alguém tiver que segui-lo, o siga por amor e não por temor. Arrisca-se perder toda a humanidade, com tal que, ao menos alguns, o sigam por amor.
Tem-se recordado sempre o amor de mãe para nos dar uma leve compreensão do amor de Deus para conosco. Recordo sempre de uma triste cena televisiva do trágico episódio da mortandade na prisão de Carandiru de São Paulo. Um repórter mostrava do lado de fora da prisão ua mãe chorando convulsivamente. Perguntou-lhe: Senhora, por que choras assim? Respondeu-lhe ela: Mataram meu filho, mataram meu filho! O repórter iluminou seu rosto. Estava cheio de ferimentos que esse seu filho drogado lhe tinha feito com suas agressões.
O amor não se defende. Se a pessoa amada não o defende ele não se defende. Facilmente se deixa explorar. Sua vitória, porém, consiste em mover o outro ao amor, convertê-lo. Aliás, ninguém transforma ninguém de fora para dentro. Somos seres livres e somente conseguiremos mudar alguém de dentro para fora, movendo-o ao amor e pelo amor. Concluo recordando que o esquecimento de si tem poder. Ele apela e se insere num poder mais alto. Aliás, que seria da mãe como a minha, que gerou quinze filhos, se o amor não tivesse uma transcendência? Que frustração! Entretanto, Jesus, na véspera de sua paixão, quando estava para ser traído e levado à morte de cruz, disse: Agora é glorificado o Filho do homem, e Deus é glorificado nele (Jo 13,31). E a glorificação aconteceu. Ao terceiro dia Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes... para que toda língua confesse... que Jesus Cristo é Senhor (Fl 2,9-11; cf Deut 6,4). Há de chegar o dia feliz em que o amor triunfará.
Estou escrevendo sobre o sacramento do matrimônio. Chamei-o de sacramento do amor. Entendi então que devia escrever, antes de mais nada, sobre o amor. Iniciei mostrando o amor como uma realidade paradoxal porque busca união máxima e, ao mesmo tempo, máxima distinção; união de natureza e distinção de pessoas. Na Trindade acontece de forma perfeita tal paradoxo insondável: Uma só natureza, um só Deus, em três pessoas. Comentei também que o amor esponsal é exclusivo e indissolúvel, não só por haver uma lei que postula isso, mas por ser exigência da própria natureza do amor esponsal.
Além dessas características importa salientar outra mais: O amor leva a pessoa ao esquecimento de si. O egoísmo centraliza a pessoa sobre si mesma. O amor faz com que a pessoa esqueça de si, se volte toda para o outro. Na pessoa amada ela se perde, literalmente. Passa do egoísmo, da centralidade do próprio eu, para a centralidade do outro. Talvez seja essa a razão porque o povo diz que o amor é cego. Trata-se certamente de uma avaliação egoísta, pois o amor é cego para seus próprios interesses, por estar voltado todo para o outro. As mães sabem disso. Uma delas, falando a linguagem do egoísmo, me disse: “O coração de mãe é o diacho!”.
Jesus expressa no Evangelho essa radicalidade do amor, quando afirma: ... quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á: mas, quem sacrificar a sua vida por amor de mim, salvá-la-á” (Lc 9,24). Essa é outra expressão do paradoxo do amor. Como se entende que se perder significa salvar-se? Nossa cultura egoísta, feita de imediatismos práticos não consegue entender, por não entende mais o amor.
Duas indicações nos auxiliam na compreensão desse paradóxo. De um lado, a experiência nos mostra que só o amor nos faz felizes, isto é, nos salva. Um outro texto do Evangelho nos aponta onde está a felicidade ao nos dizer: ... quando deres uma ceia, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. Serás feliz porque eles não têm com que te retribuir; mas ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos (Lc14,13-14). Serás feliz porque é com tais convidados que o amor acontece. E o amor nos faz felizes. De outro lado, Jesus que se identificou com esses “pequenos” (Cf Mt, 25,40), no dia do julgamento saberá retribuir (Mt 10,42).
Estou escrevendo que o amor nos leva ao esquecimento de nós mesmos, ele nos leva a perder-nos na pessoa amada. No amor somos levados a nos despojar, a nos esvaziar de nós mesmos em favor do outro. Novamente, perdendo-nos nos ganhamos. Quem poderá entender tal procedimento? Somente quem o experimentar. Nossa cultura nos afasta da experiência do amor.
Jesus que havia dito ninguém tem mais amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos (Jo 15,13), efetivamente, esvaziou-se de todas as suas prerrogativas, de todos os seus títulos. Não apelou para nenhum deles, nem sequer o de ser Deus. Entendeu-o muito bem São Paulo: Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas esvaziou-se de si mesmo, assumindo a condição de escrevo e assemelhando-se aos homens... (Fl 2,6).
No esvaziamento de si, quem ama também dá à pessoa amada aquilo que tem de melhor. Jesus não deu coisas mas deu de si mesmo: Ao dar a vida, revelou-nos o amor. Além disso fez-nos participantes de sua própria natureza (2Pd 1,4) e, deu-nos a si mesmo em alimento e bebida. Portanto, deu de si, do que tinha de melhor. São Vicente Pallotti sentiu isso quando escreveu: Deus me ama tanto que, se pudesse me fazer verdadeiro Deus, me faria verdadeiro Deus.
Em tal clima de amor, se a pessoa amada tiver que retribuir não o fará nunca por temor, mas será igualmente e sempre também por amor, por pura gratuidade. Jesus amou gratuitamente e quis acordar um nós a mesma atitude. Não exigiu nada em troca, não cobrou nada de ninguém, não ameaçou, não julgou ninguém, não condenou, numa palavra, não atemorizou. Só teve palavras de perdão. Se, com efeito, o amor não fosse gratuito criaria devedores e os devedores temem, como diz o provérbio popular: quem não deve não teme, mas quem deve teme.
Em conseqüência de tudo, o amor tem o caráter de certa ingenuidade. O que ama não vê malícia na pessoa amada. Deixa-se facilmente ludibriar. Não busca defender-se da maldade, não se defende porque se entrega.
Há quarenta anos atrás um grande pregador suíço, Pe. Maurice Zundel, fez uma conferência, publicada há poucos anos numa revista francesa com o título: Sauver Dieu de nous mêmes (salvar Deus de nós mesmos). Na verdade, Jesus Cristo nosso Deus, entregou-se nas mãos da maldade humana: o Filho do homem vai ser entregue às mãos dos pecadores (Mc 14,41). Entregou-se por amor aos homens, mas os homens não o salvaram: Os pecadores que ele ama com predileção – Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores (Mt 9,13) – em lugar de salvá-lo, o condenaram à morte.
Entregou-se por vontade do Pai que o enviou a nós. E a vontade do Pai não foi uma vontade sádica. Foi a intenção do Pai, o amor do Pai por nós, a fidelidade à sua própria palavra que havia prometido salvação. E a salvação se faz pelo caminho do amor. Isso tudo aconteceu para que, se alguém tiver que segui-lo, o siga por amor e não por temor. Arrisca-se perder toda a humanidade, com tal que, ao menos alguns, o sigam por amor.
Tem-se recordado sempre o amor de mãe para nos dar uma leve compreensão do amor de Deus para conosco. Recordo sempre de uma triste cena televisiva do trágico episódio da mortandade na prisão de Carandiru de São Paulo. Um repórter mostrava do lado de fora da prisão ua mãe chorando convulsivamente. Perguntou-lhe: Senhora, por que choras assim? Respondeu-lhe ela: Mataram meu filho, mataram meu filho! O repórter iluminou seu rosto. Estava cheio de ferimentos que esse seu filho drogado lhe tinha feito com suas agressões.
O amor não se defende. Se a pessoa amada não o defende ele não se defende. Facilmente se deixa explorar. Sua vitória, porém, consiste em mover o outro ao amor, convertê-lo. Aliás, ninguém transforma ninguém de fora para dentro. Somos seres livres e somente conseguiremos mudar alguém de dentro para fora, movendo-o ao amor e pelo amor. Concluo recordando que o esquecimento de si tem poder. Ele apela e se insere num poder mais alto. Aliás, que seria da mãe como a minha, que gerou quinze filhos, se o amor não tivesse uma transcendência? Que frustração! Entretanto, Jesus, na véspera de sua paixão, quando estava para ser traído e levado à morte de cruz, disse: Agora é glorificado o Filho do homem, e Deus é glorificado nele (Jo 13,31). E a glorificação aconteceu. Ao terceiro dia Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes... para que toda língua confesse... que Jesus Cristo é Senhor (Fl 2,9-11; cf Deut 6,4). Há de chegar o dia feliz em que o amor triunfará.
sábado, 10 de maio de 2008
Jubileu particular
Jubileu particular
Achylle Alexio Rubin / achyllerubin@yahoo.com.br
Blog: achyllerubin.blogspot.com
Dia primeiro deste mês de maio comemoramos a jubileu de ouro do Colégio Máximo Palotino. Na esteira desse evento estou também eu comemorando um jubileu particular. Completo nestes dias cinqüenta anos de professor de filosofia. Professor no Colégio Máximo Palotino, professor na UFSM, professor nos saudosos cursos de direito e economia dos beneméritos irmãos maristas.
Minha socrática consciência, ou minha pobre auto-estima me sussurram ao ouvido: em cinqüenta anos aprendeste tão pouco e obtiveste tão parcos resultados?! Entretanto, ao tentar auxiliar nossos jovens, faço valer a palavra de Pedro ao coxo de nascença: “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho, eu te dou” (At 3,6).
Com efeito, nesses cinqüenta anos fiz o que minha frágil natureza e minha limitada inteligência me permitiram fazer: dar daquilo que minhas convicções e possibilidades me indicavam. Ao concluir o doutorado em filosofia, meu saudoso orientador de tese entendeu dar-me um conselho, dizendo-me: nos primeiro três anos de professor, considero prudente usares um manual. Eu lhe respondi com grande convicção e maior ousadia: ainda que lecione mal, penso ser preferível fazê-lo sem o uso de manuais e apostilas.
Mal imaginava então a mão de obra que essa minha pretensão iria me custar. Mas acredito ter sido premiado. Ao menos para meu proveito. Aprendi a me tornar aprendiz de filósofo, não repetindo o que os outros pensaram, mas mostrando aos alunos a arte de filosofar. Não tratei de ensinar filosofia, mas sim de ensinar a filosofar.
Aprender a história da filosofia, o pensamento dos outros, é certamente importante. Não é, porém, suficiente para se criar um filósofo. Tomás de Aquino, em seu tratado De Coelo (Sobre o Céu), escreve que a função da filosofia “não é saber o que os homens pensam, mas qual é a verdade objetiva”. Nessa busca deverá, de preferência, ocupar-se a mente humana.
Para tanto o aluno necessita ver o exemplo de alguém que filosofa diante dele. Apelei para a imagem do aprendiz a pintor. O aprendiz a pintor começa copiando pinturas. Mas se quiser progredir na arte, deverá libertar-se da dependência dos outros para, finalmente, tornar-se autêntico pintor com obras originais. Assim, o curso de filosofia não deverá ter como objetivo ensinar filosofia, mas ensinar a filosofar.
Com esse objetivo promoveu-se, ainda nos idos de sessenta, uma associação filosófica, contando como um dos principais animadores o saudoso Sergio Pires, então aluno do curso de filosofia. Essa associação promoveu seminários para alunos e professores. Em 1967, por exemplo, animou um desses seminários sobre filosofia das ciências, ao qual tomaram parte um grande número de professores, entre eles o próprio Dr. Mariano da Rocha Filho, fundador e reitor da Universidade. O conteúdo desse seminário publiquei-o há poucos anos sob o título “Três lições de filosofia das ciências”.
Ao completar, neste mês de maio de 2008, cinqüenta anos de professor de filosofia, sou muito grato por ser o que sou devido às circunstâncias a mim oferecidas por uma Providência misteriosa e cheia de amor que me conduziu, malgrado minhas resistências físicas, morais e espirituais. Incluídas nessas circunstâncias estão muitas pessoas caridosas que depositaram confiança em mim, às quais sou imensamente agradecido.
Achylle Alexio Rubin / achyllerubin@yahoo.com.br
Blog: achyllerubin.blogspot.com
Dia primeiro deste mês de maio comemoramos a jubileu de ouro do Colégio Máximo Palotino. Na esteira desse evento estou também eu comemorando um jubileu particular. Completo nestes dias cinqüenta anos de professor de filosofia. Professor no Colégio Máximo Palotino, professor na UFSM, professor nos saudosos cursos de direito e economia dos beneméritos irmãos maristas.
Minha socrática consciência, ou minha pobre auto-estima me sussurram ao ouvido: em cinqüenta anos aprendeste tão pouco e obtiveste tão parcos resultados?! Entretanto, ao tentar auxiliar nossos jovens, faço valer a palavra de Pedro ao coxo de nascença: “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho, eu te dou” (At 3,6).
Com efeito, nesses cinqüenta anos fiz o que minha frágil natureza e minha limitada inteligência me permitiram fazer: dar daquilo que minhas convicções e possibilidades me indicavam. Ao concluir o doutorado em filosofia, meu saudoso orientador de tese entendeu dar-me um conselho, dizendo-me: nos primeiro três anos de professor, considero prudente usares um manual. Eu lhe respondi com grande convicção e maior ousadia: ainda que lecione mal, penso ser preferível fazê-lo sem o uso de manuais e apostilas.
Mal imaginava então a mão de obra que essa minha pretensão iria me custar. Mas acredito ter sido premiado. Ao menos para meu proveito. Aprendi a me tornar aprendiz de filósofo, não repetindo o que os outros pensaram, mas mostrando aos alunos a arte de filosofar. Não tratei de ensinar filosofia, mas sim de ensinar a filosofar.
Aprender a história da filosofia, o pensamento dos outros, é certamente importante. Não é, porém, suficiente para se criar um filósofo. Tomás de Aquino, em seu tratado De Coelo (Sobre o Céu), escreve que a função da filosofia “não é saber o que os homens pensam, mas qual é a verdade objetiva”. Nessa busca deverá, de preferência, ocupar-se a mente humana.
Para tanto o aluno necessita ver o exemplo de alguém que filosofa diante dele. Apelei para a imagem do aprendiz a pintor. O aprendiz a pintor começa copiando pinturas. Mas se quiser progredir na arte, deverá libertar-se da dependência dos outros para, finalmente, tornar-se autêntico pintor com obras originais. Assim, o curso de filosofia não deverá ter como objetivo ensinar filosofia, mas ensinar a filosofar.
Com esse objetivo promoveu-se, ainda nos idos de sessenta, uma associação filosófica, contando como um dos principais animadores o saudoso Sergio Pires, então aluno do curso de filosofia. Essa associação promoveu seminários para alunos e professores. Em 1967, por exemplo, animou um desses seminários sobre filosofia das ciências, ao qual tomaram parte um grande número de professores, entre eles o próprio Dr. Mariano da Rocha Filho, fundador e reitor da Universidade. O conteúdo desse seminário publiquei-o há poucos anos sob o título “Três lições de filosofia das ciências”.
Ao completar, neste mês de maio de 2008, cinqüenta anos de professor de filosofia, sou muito grato por ser o que sou devido às circunstâncias a mim oferecidas por uma Providência misteriosa e cheia de amor que me conduziu, malgrado minhas resistências físicas, morais e espirituais. Incluídas nessas circunstâncias estão muitas pessoas caridosas que depositaram confiança em mim, às quais sou imensamente agradecido.
Marcadores:
Não se ensina filosofia mas se ensina filosofar
Assinar:
Postagens (Atom)