domingo, 24 de abril de 2011

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Seguimento de Cristo (2)

O texto anterior sobre esse tema permaneceu truncado. Importa aclarar algo mais. Começaria insistindo que a teologia cristã deverá saber referir tudo ao fato maior, à "fé e vida em Cristo". A consequência do que tenho postado no primeiro texto a respeito do que nos veio fazer Cristo, nos leva a dizer que o seguimento de Cristo não se refere a um ato extrínseco de seguir à frente ou atrás de Cristo. Nem sequer de seguir ao lado de Cristo. Refere-se a ser parceiro livre de Cristo em tudo que fazemos.
Quando Deus criou homem e mulher, disse: "façamos o homem à nossa imagem e semelhança" (Gn 1,26). Ora, com a vinda de Jesus Cristo aconteceu uma "nova criação". Não somente nós, mas, de alguma forma, toda a criação é constituida "nova criatura", pois, "eis que tudo se fez novo!" (2Cor 5,17). Tudo segundo "um desígnio de reunir em Cristo todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra" (Ef 1,10). A criação toda, com efeito, "na esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus, geme e sofre como que dores de parto até ao presente dia..." (Rom 8, 8,21-22).
Com isso, no Novo Testamento, é como se Deus dissesse: façamos o homem à imagem e semelhança de meu eterno Filho! "Filhos no Filho", como se acha nos documentos do Concilio Vaticano II.
O seguimento de Cristo, nesta perspectiva, é entendido como um ser outro Cristo, como também um agir de Cristo. Tem-se dito com grande propriedade que o agir de uma pessoa, ordenada com o Sacramento da Ordem, acontece in persona Christi, quer dizer essa pessoa faz às vezes de Cristo, encarna a pessoa de Cristo, fala como Cristo, como outro Cristo. Por isso, no sacramento da confissão e também na Eucaristia ele não diz "Deus te perdoa", ou "este é o corpo de Cristo", mas diz: "eu te perdoo" e, "isto é o meu corpo".
Todo cristão batizado, porém, participa de maneira distinta, mas real, de ser outro Cristo, a fim de também dizer palavras de Cristo. Sobretudo, na familia, os pais são habilitados a dizer palavras de Cristo a seus filhos. E assim em todo relacionamento entre cristãos.
Portanto, como filhos de Deus, "nova criatura", somos todos vocacionados a sermos outro Cristo. Tenho, na pregação, provocado a hilaridade do público, ao afirmar que nossa vocação é de sermos "Jesuszinhos" no mundo.
Acredito que com esse apelativo tenho ilustrado melhor o que significa o seguimento de Jesus. Seria a forma real, verdadeira, de representar Jesus. Não só por chamado e nomeação da parte dele, mas também por ter-nos feito "novas criaturas", "à sua imagem e semelhança", outro Cristo.
Como "novas criaturas", mas sempre criaturas, a realidade de Deus não permite, entretanto, sermos mais do que instrumentos livres, parceiros livres do Cristo, constituidos pela participação de sua natureza, num gesto de sua infinita bondade (2Pd, 1,4).
Portanto, o seguimento de Cristo é algo que não pode ser entendido como qualquer seguimento, mas é preciso entendê-lo num sentido único e singular.
Jesus, felizmente, usou a imagem de grande significado, ao comparar o seguimento à relação existente entre o tronco e os ramos de uma videira. Os ramos darão muito fruto na medida em que se conservarem unidos ao tronco. Verbalmente, disse: "o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira". Assim, o evangelho de João, em pouco mais de vinte linhas repete a palavra "permanecer em mim" seis vezes. Com essa imagem dos ramos unidos ao tronco ele caracteriza de forma perfeita o seguimento (Jo 15, 1-8). Ler com muita atenção esse texto de João, traz para o que vimos acima verdadeira luz.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Seguimento de Cristo

A realidade do "Seguimento de Cristo", é hoje, repetida em toda parte. Na V Conferência dos bispos da América Latina e Caribe, em Aparecida, maio de 2007, Bento XV, no discurso de abertura deu o tom para os bispos reunidos, ao afirmar que "a fé e a vida em Cristo é prioritária". Os bispos parece que entenderam o recado e o traduziram no Documento final.
Importa, dizer uma palavra sobre essa meta da vida cristã, o "seguimento de Cristo". Como poderíamos expressá-lo novamente, em busca de refazer em todos os que o buscam sua melhor compreensão?
Em primeiro lugar, proponho recordar que quando Deus age, também cria. E, ao criar, Deus é sempre generoso, magnânimo. Ele comunica às suas criaturas uma natureza com capacidade de agir e de recriar. No vasto gênero da vida, por exemplo, todo ser vivo é constituido de capacidade de ação, de produzir efeitos proporcionais à sua natureza. Ser vivo é ser capaz de agir, de se mover autonomamente.
Esse autonomia, porém, por se tratar de criatura, nunca estará acontecendo em absoluta independência de seu criador. Nada pode acontecer de forma absolutamente autônoma. Só o Criador goza de absoluta autonomia. Mas tudo o que é criado não pode arrogar-se tal autonomia. Daí que a primeira consideração de toda criatura deve levar em conta esse fato de absoluta dependência. A revolta contra Deus, sempre foi libertária, coisa impossivel e absurda para a criatura.
Em segundo lugar, quando Deus, em sua infinita bondade, nos "recriou" em Jesus Cristo, foi novamente magnânimo. Enriqueceu nossa natureza de criatura, de uma "sobre-natureza". Uma sobrenatureza que não é "sobre", mas que informa nossa natureza de uma realidade nova capaz de nos fazer agir de forma nova. Assim se diz que devemos nos "com-formar" em Cristo, tendo ele nos feito "participantes da natureza divina" (2Pd 1,4). Jesus expressou-o de outra maneira, dizendo que deveríamos "nascer de novo" Esse prodígio, Jesus disse que aconteceria "pela água e pelo Espírito Santo" (Jo 3,1s).
Em terceiro lugar, é nessa perspectiva que acontece o "Seguimento de Cristo". Isto é, Jesus, dando-nos outra vida, vida nova, pois "todo aquele que está em Cristo, é uma nova criatura" (2Cor 5,17), ele sinalizou o seguimento. O seguimento, desde esse momento do "nascer de novo" se tornou um seguimento de parceria. Aqui verte a missionariedade. Entretanto, sendo nós "novas criaturas", seremos aqui também e sempre criaturas, dependentes em todo nosso agir. Deus não pode abdicar de ser Deus, Absoluto. Nada poderá acontecer fora de sua realidade de ser Deus, nem ser algum e muito menos algum agir.
Em quarto e último lugar, aqui reside a maior de todas as controvérsias na história da Igreja. Isto é, como é possível que dois agentes, Deus e seu parceiro, ambos agentes livres produzirem a mesma ação missionária, sem se repartirem as tarefas e também, é evidente, sem considerá-las relacionando-se com independência e por vínculos mais ou menos externos, como sejam a "dialética", ou "articulação. Há um só caminho de relação. É o caminho da dependência. Nós, parceiros livres, agimos dependentes da causa primeira e universal de tudo quanto acontece. Um exemplo material é o seguinte: O músico toca toda a música e o instrumento musical toca também toda a mesma música, mas na dependência. Sendo, entretanto, que nós somos livres e Deus é sumamente livre, como se compaginam duas causas livres? Não pode ser numa dependência como o instrumento musical depende do músico. Aqui há dependência na composição da música e também na execussão. Qual a resposta? Nossa dependência instrumental, deve reger-se pela atitude da criatura racional e livre que, por ser criatura, depende essencialmente tanto no ser como no agir. Essa atitude tenho-a expresso com quatro palavras chaves: 1) "intimidade". Isto é, se dependemos também no plano, no projeto, devemos conhecê-lo e para isso devemos entrar na intimidade de Deus. 2) "docilidade". Se é plano de Deus, é preciso dispor-se. Para tanto, suplicar os dons da sabedoria e da fortaleza. 3) Só assim acontecerá o SEGUIMENTO!





Em quarto lugar, sendo nós "parceiros" na missionariedade, surge o eterno problema

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A nova Encíclica, tratado de antropologia

A nova encíclica, tratado de antropologia
Achylle Alexio Rubin
achyllerubin@yahoo.com.br

Esse título, “tratado de antropologia”, a meu modo de ver, define e resume toda a nova encíclica de Bento XVI, Caritas in veritate. Se alguém buscar lê-la e entendê-la, melhor a entenderá sob essa luz, uma antropologia da pessoa como ser social.
O enfoque da encíclica é o social. Trata-se de uma encíclica social, na esteira de uma série de cerca de dez que, desde a Rerum novarum de Leão XIII, de 1891, vieram sendo publicadas pelos papas que se sucederam até nossos dias.
Importante é considerar que o social antes de tudo pertence à antropologia da pessoa individua, porque representa um componente de sua própria natureza. Os antigos filósofos gregos, com efeito, definiram a pessoa como um “ser político”, isto é, social. O Bem Comum que fundamenta o social é um fator interno à pessoa, componente da pessoa que simultaneamente é de todos e, sendo de todos, é também e, em primeiro lugar, da pessoa. Dele nascem os princípios básicos de qualquer ação social: a justiça, a solidariedade, a subsidiaridade, a gratuidade, o dom.
Todo o arcabouço das estruturas sociais vem a ser fruto, derivação da natureza humana, fundamento último de toda ordem social. A encíclica cita, em o número 57, um princípio universal, tirado do documento do Concilio Vaticano II: “Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em função do homem, como seu centro e seu termo” (Cf Gaudium et spes, nº 12). Uma verdadeira antropologia, portanto, deverá saber orientar tal ordem universal, tendo o homem como centro e fim de tudo.
Mas isto não basta, pois, assim como todo ser tende à conservação de sua existência e todo ser vivo tende à conservação da espécie, o ser racional vai mais longe, busca insaciavelmente a verdade e o amor, como necessidades primeiras. Verdade e amor pertencem à própria essência do ser humano, de tal sorte que é só por aí que se atingem objetivos verdadeiramente “humanos e humanizantes” (nº 9). A Doutrina Social da Igreja, portanto, orienta toda a sua vasta consideração pela “centralidade da pessoa”.
Dia 13 de maio de 2004, o ainda Cardeal Ratzinger, atual Papa, fez uma conferência diante do Senado italiano, na qual afirmou:
“A dignidade da pessoa e de seus direitos, não são criados pelos legisladores, nem são conferidos aos cidadãos, mas antes existem por direito próprio, e devem sempre ser respeitados pelo legislador, pois, são atribuídos ao mesmo cidadão como valores de ordem superior”. Noutras palavras, a dignidade da pessoa, os direitos humanos, não são concessão benévola de ninguém.
A própria filosofia nos diz que o fato maior que constitui a consciência do ser humano consiste na consciência de sua conservação no ser e de seu pleno desenvolvimento. Temos aqui, na consciência, os fundamentos dos direitos naturais da pessoa, pois tal consciência testemunha que se trata de uma verdadeira posse de si que ninguém poderá violar. É o primeiro e mais profundo sentido de propriedade privada e do direito em geral. Toda ditadura, entretanto, que viola os direitos humanos, começa por violar essa posse primeira, para depois partir para a violação dos demais direitos de posse.
A outra dimensão dos “valores de ordem superior” é a que se funda no transcendente, em Deus, já que “Deus é o garante do verdadeiro desenvolvimento do homem, pois, tendo-o criado ‘à sua imagem’, fundamentou também sua dignidade transcendente e alimentou o seu anseio constitutivo de ‘ser mais’” (nº 29).
Aqui a antropologia da encíclica se eleva e se complementa ao nível mais alto da teologia, da revelação de Deus, registrada nas primeiras páginas da Bíblia.
Coisa maravilhosa! Lida sob essa luz, a luz de uma abrangente antropologia, a nova encíclica, Caritas in veritate, ganha um sentido amplo, falando do homem como ser social. E então, vale a pena repetir e meditar a afirmação do documento do Concílio Vaticano II, Gaudium et spes: “Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em função do homem, como seu centro e seu termo...”.

A Nova Encíclica Social

A nova encíclica social

Chama-se de encíclica uma longa carta, de 150 a 200 páginas que o Papa envia a toda a Igreja Católica, bispos, padres, religiosos e fieis em geral. Nessa carta são tratados assuntos de orientação para a melhor compreensão da doutrina da Igreja e para o melhor agir de todos os fieis.
Celebramos no dia 29 de junho o primeiro aniversário da terceira carta encíclica do Papa Bento XVI, tratando da Doutrina social da Igreja. O título das encíclicas é tirado de suas primeira palavras. A atual se intitula Caritas in veritate, a caridade na verdade.
Desde 1891, com a publicação da encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII, os Sumos Pontífices vieram publicando periodicamente encíclicas sociais. Assim, quarenta anos após a Rerum Novarum, em 1931, Pio XI publicou uma encíclica comemorativa que leva o nome de Quadragesimo Anno. Inícios da década de sessenta, João XXIII publicou duas encíclicas sociais, a Mater et Magistra e a Pacem in Terris. Em 1971, comemorando os oitenta anos da Rerum Novarum, Paulo VI publicou a encíclica Octogésimo adveniens. Antes disso, porem, o mesmo Papa publicara, em 1967, uma importante encíclica social com o título Populorum progressio. João Paulo II, entre outros grandes documentos de orientação social, publicou um primeiro, comemorando os 20 anos da Populorum progressio, com o título Sollicitudo rei socialis. A seguir comemorou os cem anos da Rerum novarum, com a encíclica Centesimus annus.
Esses foram os grandes momentos de orientação social dos Papas, desde o fim do século XIX. Alguém poderia perguntar-se, por que orientações tão repetidas sobre a ordem social no mundo? Acontece que, de época em época, as condições sociais vão tomando nova fisionomia. Hoje, por exemplo, vivemos com a novidade do fenômeno mundial da globalização. O próprio titulo da primeira grande encíclica de Leão XIII, de 1891, significa “das coisas novas...”. As coisas novas eram na época, o surgimento da era industrial com os enormes problemas do proletariado indefeso, antes das leis de proteção social e em vista das ideologias que nos últimos vinte anos demonstraram suas através de seus fracassos.
O objetivo primeiro apontado na nova encíclica, Caritas in veritate, está expresso no fim de sua introdução, onde o Papa nos diz que “pretende prestar homenagem e honrar a memória do grande Pontífice Paulo VI, retomando os seus ensinamentos sobre o ‘desenvolvimento humano integral’... para os atualizar nos dias que correm”.
Bento XVI dá a essa encíclica de Paulo VI, Populorum progressio, um grande relevo, dedicando-lhe todo o primeiro capítulo, depois de dizer que “é minha convicção que a Populorum progressio merece ser considerada como a Rerum novarum da época contemporânea, que ilumina o caminho da humanidade em vias de unificação”(nº 8).
A nova encíclica já foi objeto de grandes atenções por parte de especialistas que lhe descobriram valores preclaros. Fundamentando na caridade toda a ordem social, tira também importantes conclusões para a ordem econômica em gravíssima crise.
Por exemplo, o jornal romano, Corriere della sera, publicou que “o economista italiano Ettore Gotti Tedeschi, expoente dos maiores grupos bancários mundiais, propôs outorgar ao Papa Bento XVI o Nobel de Economia”. E, qual o motivo? O Papa foi o único que levantou a questão do controle indiscriminado da natalidade como uma das principais causas da crise mundial em que estamos. Como assim? Ettore explica: “Tal controle da natalidade levou ao crescimento os custos fixos, como os impostos, e à diminuição da poupança e dos ativos financeiros. Entretanto, muitos analistas preferiram não aprofundar a origem “original” da crise porque tocar no tema da natalidade representa um tabu”. Vê-se que a Caridade na verdade é uma encíclica que, estudada, deverá mexer com muitos críticos político-sociais contemporâneos. Disse “estudada” porque ela não é uma obra de uma única leitura...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Não só de matéria

Não só de matéria
Achylle Alexio Rubin
achyllerubin@yahoo.com.br

Acabo de ler um livro, cuja tradução italiana leva o título que encabeça esta crônica. Nesse livro o autor, Thomas Crean, professor de filosofia na universidade de Oxford/Inglaterra, analisa e contesta as afirmações superficiais e desfocadas do biólogo Richard Dawkins, em seu livro, aliás, best-seller, A ilusão de Deus. Oxalá essa obra de Crean seja logo traduzida ao português.
Faço essa referência porque escrevi em crônica anterior que a nova encíclica social de Bento XVI, Caritas in veritate, representa um tratado de antropologia. Sabemos que a antropologia se ocupa do estudo do ser humano, de sua natureza. Pois bem, a nova encíclica fundamenta todas as suas considerações sobre valores que ultrapassam de muito os meros valores materiais. Se Deus fosse uma ilusão, como Richard Dawkins gostaria que fosse, então sim a humanidade continuaria vítima da incomensurável ilusão de alcançar preencher o anseio de amor e de felicidade com meros bens materiais, econômicos...
A encíclica de Bento XVI, justamente em seu primeiro parágrafo, começa por nos dizer a evidência atestada até pelos filósofos pagãos, que são as virtudes de ordem espiritual, a caridade e a verdade, “a força propulsora para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira” (nº1).
É interessante que, no andar de toda a encíclica, o Papa nos mostra que esses valores espirituais, pertencentes à verdadeira natureza do homem, são determinantes na solução dos problemas humanos, tanto os de ordem pessoal, quanto os de ordem social, política, econômica e financeira. Demonstra-nos que eles conduzem a uma feliz experiência, a experiência do dom, da gratuidade, que deverá sempre temperar os mecanismos econômicos da sociedade. Insiste que são as virtudes da caridade e da verdade que “colocam o homem perante essa admirável experiência do dom”.
Se tal experiência não for ofuscada por “uma visão meramente produtivista e utilitarista da existência”,ela nos abre o espírito sedento de valores maiores, sedento de ‘ser mais’, para “a dimensão da transcendência”. Abrindo-se para a transcendência o homem se reconhece também dom em seu ser e em seu agir. Ele não é causa de si mesmo. Ele é dom, é gratuidade. Com isso ele se abre em louvor e ação de graças para o doador de todo dom.
Privado de uma tal consciência, “o homem moderno se convence erroneamente, de que é o único autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade. Trata-se de uma presunção, resultante do encerramento egoísta em si mesmo que provém... do pecado das origens” (nº 34).
Sobre isso, Bento XVI cita o Catecismo da Igreja Católica nessa fundamental sentença: “Ignorar que o homem tem uma natureza ferida, inclinada para o mal, dá lugar a graves erros no domínio da educação, da política, da ação social e dos costumes” (Catecismo, nº 407).
Grave erro é não reconhecer que “a natureza ferida” é a origem do egoísmo, do sensualismo desenfreado, da ganância que, hoje, todos apontam como a principal causa da grande crise em que se debatem as nações.
Acontece que “a convicção da exigência de autonomia da economia, que não deve aceitar ‘influências’ de caráter moral, impeliu o homem a abusar dos instrumentos econômicos até mesmo de forma destrutiva..., e ainda a espezinhar a liberdade da pessoa e dos corpos sociais” (nº 34). Concluo, portanto, convidando o leitor a ler com atenção a nova encíclica de Bento XVI, Caritas in veritate. Meditemos e tiremos a conclusão que se impõe de que “não só de matéria”, ou, como Jesus contestou ao tentador: “não só de pão vive o homem” (Mt 4,4; Deut 8,3)...

domingo, 10 de maio de 2009

Meditação para o ano catequético

Meditação para o ano catequético

O ano catequético é também ocasião para meditarmos sobre a catequese. Tem-se escrito muito, ocorreram muitos estudos a respeito. Entendo, porém, que se deveria refletir sobre dados que julgo pouco levados em conta.
Começo com uma pergunta que um candidato à vida consagrada me fez, há poucos dias: “Por que se batizam crianças, se elas não teem consciência da fé?”
Respondi: tem-se dito que a criança é batizada na fé dos pais. Considero essa resposta verdadeira, mas deveria ser explicada. Acredito, com efeito, que a criança não só é batizada na fé dos pais, mas também na sua própria fé. Como assim?
A criança biologicamente é um ser autônomo. Esse é um dos argumentos contra o aborto. Entretanto, por respeito à estrutura de seu caráter, estrutura psíquica, ética, moral e espiritual, a criança desde a concepção depende e já vai incorporando em si os elementos dessas áreas, incluída, sobretudo, a fé. Tudo isso a criança já possui incoativamente, recebido dos pais. A Renate Jost Soares, com sua intuição e trabalho tão sério e fecundo, que o diga.
Assim, o inicio desses componentes essenciais para o ser humano, não exige necessariamente o uso da consciência, pois ele acontece antes mesmo. Até o uso pleno da consciência, o filho depende dos pais nas áreas do caráter, do comportamento e da fé. Não só depende, mas também recebe esses elementos dos pais. Aqui a autonomia vai acontecendo em momentos sucessivos.
Os pais são assim ministros naturais e eficazes. Para tanto, receberam do Criador tal ministério, inscrito em sua própria natureza de pais. Trata-se ademais de um ministério indispensável e, mais do que indispensável, insubstituível!
Nenhum outro método, nenhuma outra ação poderá substituir esse ministério dos pais, recebido do Criador, inscrito na própria natureza da paternidade e maternidade. Agir contra a violência, por exemplo, não produz frutos. Seria preciso cuidar da raiz que condiciona a violência. O Texto-base da CF deste ano diz uma frase que deve ganhar mais espaço e relevo. Diz lá: “... a família forma o ambiente privilegiado e insubstituível para desenvolver a cultura da paz” (nº243).
Essa frase nos sugere por associação o principio de subsidiaridade que Pio XI consagrou na encíclica Quadragesimo Anno. Subsidiário é algo “secundário”, que presta auxílio a outro principal. Assim a comunidade maior é apenas subsidiária por respeito à menor, isto é, só deve ser de auxílio naquilo que a menor não tem condições de conseguir. A menor é a primária, a maior, secundária, subsidiaria. Esta não pode tomar o lugar daquela.
Quando levam a criança a ser batizada, os pais são exortados, tanto ao receberem a vela acesa, quanto ao serem abençoados. No primeiro caso o ministro diz: “...esta luz vos é entregue para que a alimenteis” e, no segundo, diz: “Deus... os abençoe, a fim de que...sejam os primeiros a dar aos filhos... o testemunho de sua fé em Jesus Cristo nosso Senhor”.
Que tem a ver isso com a catequese? Não é difícil de relacionar. A catequese não pode de forma alguma substituir os pais na educação da fé. O catequista não tem a competência natural para isso. Nunca fará o que só os pais podem fazer.
Muitos se questionam donde vem a fé de uns em contraposição da falta de fé de outros. A experiência nos diz que os primeiros receberam a fé dos pais. É deles que normalmente recebemos a fé. É o caminho natural, dom de Deus inscrito na natureza.
Não será, a falta de vinculação religiosa à família, a causa da queixa tão comum de que após a primeira eucaristia e, sobretudo, após o sacramento da Crisma, as crianças e adolescentes não voltam mais à Igreja? E não há também a queixa a respeito das dificuldades inatas da pastoral da juventude? Não será porque as crianças e os jovens, aos lhes faltar essa vinculação familiar, se tornam quase impermeáveis aos valores ético-religiosos?
Claro, Deus faz milagres, mas o caminho normal do agir de Deus são as “causas segundas”. Ao criar, ele enriqueceu as criaturas de capacidade de agir. E às criaturas racionais, deu a missão de educar os filhos para os valores ético-morais e religiosos. Os pais são a causa segunda na educação, sendo sempre Deus a causa primeira.
Alega-se que os pais não cumprem com sua missão. Muito bem. Mas então por que não dar mais ênfase à pastoral familiar, em vez de substituir-se a eles? Para que despertem ao cumprimento de sua missão, entretanto, é importante que concretamente sejam estimulados a cumpri-la, com a prática da educação dos filhos na fé. Por que não restituir-lhes então também a prática de seu carisma, confiando-lhes a preparação para os sacramentos de iniciação cristã?
Dir-se-á, que aos pais lhes falta o preparo para a catequese. Mas, e se não se tratasse de “dar catequese” aos filhos? O nome “catequese”, com efeito, possui uma conotação tão especializada e até complicada, depois de tantos estudos e tentativas de solução, que não se pode, é verdade, exigir dos pais tal formação. Mas, dizendo com toda a propriedade, para educar na fé basta uma só coisa: ter fé,! Que “sejam os primeiros a dar aos filhos... o testemunho de sua fé em Jesus Cristo nosso Senhor”. É só isso que se precisa de imediato. A instrução, a catequese, deverá vir depois.
Por ocasião da visita do Papa, maio de 2007, Bento XVI afirmou novamente que evangelizar não significa instruir, mas fazer outros participar da vida nova em Cristo. Pede-se aos pais só isso, evangelizar os filhos.
Por que então não se poderia deixar aos pais a missão de preparar a criança para a eucaristia e conduzi-la, em dia à sua escolha, não à “primeira comunhão”, mas ao inicio da prática eucarística?
Atualmente a catequese não se assemelha por demais à escola? A escola normalmente termina com formatura. De fato, muitos se perguntam se a “primeira comunhão”, como o dia do Crisma, não se parecem mais com uma formatura. Alcançado o “diploma”, as crianças e os jovens contentam-se com ele. Não voltam mais à igreja.
Outra questão. Com a idade de 11, ou 12 anos, ainda lhe interessa a eucaristia a criança de hoje? São Pio X, há um século atrás, pedia que iniciasse aos 07 anos a participação na vida eucarística. Hoje, um século após, e depois de tanta evolução, não se deveria pensar em 05 ou 06 anos?
Muitos temem que o número dos que fazem a primeira comunhão e a crisma irá com isso diminuir de muito. É verdade... Mas, e se a perseverança aumentasse, não seria muito mais importante?
Não só os pais, mas toda a pastoral ganharia em estímulo para buscar a raiz dos problemas e não mais permanecer na aparência dos números. Responderiam assim, em profundidade, aos anseios inconscientes dos cristãos que inconscientemente também ameaçam fugir para outras denominações religiosas.
Como me propus uma meditação para o ano catequético, não julgo necessário me alongar mais. São apenas alguns “pontos”, para serem considerados, com intenção de também ser uma proposta subsidiária.

Pe. Achylle Alexio Rubin
achyllerubin@yahoo.com.br